—Bem, bem... Essas licções na ponta da lingua para amanhã. E não me vão para o rio, por causa das lavadeiras. Não gosto da lingua da tal Lindoria, que vae por ahi badalar... badalar...
Partiu de canna ao hombro e n’um passo diligente. Deus nobis heac otia fecit—segredava comsigo. Os discipulos fugiam para o outro lado, com medo que ainda lhe desse a tineta, de voltar para traz. Corriam pelos caminhos, davam saltos, guinchos... O Thomaz relembrou-lhes o que disse o padre João, porém elles, não se importaram, continuando a correr e a gritar sem fazerem caso.
Na margem do rio, o sacerdote, armou-se de todos os cuidados para não ser presentido do esperto animal. Ao dirigir-se á pedra branca, os passos eram miudos, evitando as folhas seccas, que gemem debaixo dos pés.
Que enorme prazer de vingança! Iria passar á porta do morgado, com a truta pendente da mão. «Olha lá! rala-te p’ra’hi!»—havia de dizer mentalmente. Nunca houve bandido que espreitasse com mais sagacidade a sua victima.
Já de longe levava a canna prestes, a sedela colhida na mão para a lançar imprevistamente. Estava a pouca distancia, quando estacou, pallido de colera! O D. Luiz, surgíra n’esse momento da porta da azenha, seguindo rio acima com o anzol tambem prompto!
—Olhem o excommungado do barbaças que teve denuncia!—exclamou o ecclesiastico. Bem disseram os rapazes!
O fidalgo, homem edoso, corpulento, tez morena das soalheiras, olhar emprehendedor, tambem o viu e, provavelmente, faria identicas reflexões.