A explicação dos sonhos existe desde a mais remota antiguidade, existirá mais ou menos desvairada emquanto o genero humano não desapparecer da face da terra, ou não for reduzido á condição dos animaes irracionaes.
É certo, porém, que o valor da significação dos sonhos vae desappareçendo á medida que a illustração esclarece o espirito dos povos e lhes mostra claramente que as excitações nervosas, que todos soffremos, mais ou menos, são a causa do cerebro produzir sonhos alegres ou tristes, segundo as disposições physicas ou moraes da pessoa que sonha.
Sonhos, sempre os houve e ha de haver; notando-se, porém, que só os povos rudes ou os ignorantes é que fazem caso da significação que os antigos lhes attribuiram. As pessoas instruidas e de juizo sabem perfeitamente que as venturas ou desgraças, que succedem ao genero humano, são predicados inherentes á sua condição, não influindo nada para isso os sonhos ou phantasias de ninguem.
O nosso intuito, publicando este Livro dos Sonhos, é unicamente mostrar ao leitor o desvario da razão humana, e o que elle produz para induzir em erro as pessoas nimiamente crédulas.
É possivel que haja quem não pense como nós a respeito da significação dos sonhos; para esses, que não pensam como nós, vamos aqui transcrever o que outros teem dito acerca da classificação dos sonhos e seu valor; eis o que elles dizem:
«Ha quatro especies de sonhos, e, segundo a qualidade de cada um, se denominam de diverso modo:—a primeira é o Sonho propriamente dito; a segunda, a Visão; a terceira, o Pesadelo; a quarta, a Apparição.
«O Sonho é aquelle que, debaixo de certas figuras, nos apresenta a verdade—como quando José interpretou a Pharaó o sonho, que este tivera, com sete vaccas gordas e outras sete magras.
«A Visão é uma especie de revelação, que, durante o somno, nos é feita por algum espirito divino—como aconteceu a José, esposo da Virgem, e aos Magos, quando escaparam á perseguição de Herodes.
«O Pesadelo: é causado por affecções vehementes, que atacam o cerebro, quando dormimos, e encontram o espirito vigilante. Então o que nos aconteceu durante o dia occupa-nos igualmente de noite: quem se arreceia de algum mau encontro, sonha que elle se verifica; o que teve alguma questão acalorada, questiona ainda, dormindo; o avarento sonha com o seu thesouro; e o que ceiou regaladamente, sonha com os prazeres da mesa.
«A Apparição não é mais do que um phantasma, creado pela imaginação dos velhos e das creanças, que se afigura aos espiritos fracos.