«Já se vê, pois, que d'estas quatro especies de sonhos, só as duas primeiras é que teem apparencias de verdade; as outras duas são inteiramente falsas.

«Cumpre advertir que os sonhos, de que não conservamos lembrança alguma, nenhum valor teem; e quanto áquelles de que nos recordamos, para se tomarem em consideração, devem ter logar proximo ao dia, ou, ao menos, depois da meia noite—porque, até essa hora, todos os sentidos e virtudes corporaes estão occupados com a digestão.

A proposito dos sonhos e dos pesadelos eis o que se lê no Diccionario de Medicina Popular de Chernoviz:

«Sonho.—O cerebro nem sempre está em repouso completo durante o somno. Muitas vezes, emquanto se dorme, produzem-se certos actos intellectuaes que se chamam sonhos. Estes sonhos, por muito tempo considerados como actos sobrenaturaes, avisos celestes ou annuncios do futuro, são o producto do trabalho irregular do cerebro; e se as mais das vezes são estranhos, é porque, tendo o somno feito cessar toda a vontade, as diversas ideias que se formam são associadas como por acaso e com extraordinarias incoherencias. Ordinariamente os sonhos são relativos aos trabalhos, ás paixões que occupam o individuo durante as vigilias, e que deixaram uma impressão no cerebro; o sabio sonha com os seus estudos, o amante com o objecto da sua inclinação. Mas pódem tambem ser o resultado da imaginação ou da memoria; uma impressão apenas percebida póde occasional-os. Algumas vezes os sonhos limitam-se á producção de ideias; mas outras vezes tambem são acompanhados da acção que teria seguido naturalmente estas ideias; um move-se, falla; outro queixa-se; outro canta;...... Não é facil impedir os sonhos.

«O Pesadelo não comprehende os sonhos penosos de toda a especie; designa-se mais particularmente por esta palavra um estado em que a pessoa adormecida, julgando-se na imminencia de um perigo, sente-se privada do uso do movimento e da voz, quer para fugir ou repellir o ataque, quer para chamar soccorro. Estas sensações illusorias são mui variadas: taes são uma queda n'um abysmo, a vizinhança de um incendio, o ameaço de um assassinio, etc. Ás vezes o homem julga ver no seu sonho um monstro, um peso que lhe opprime o peito e lhe tolhe a respiração. Logo que se póde fazer algum movimento, o sonho desapparece, e ás vezes, ao despertar-se, existem palpitações e uma fadiga geral.

«As creanças, as mulheres e as pessoas idosas são mais sujeitas ao pesadelo do que os adultos e os homens. Uma grande sensibilidade predispõe para este incommodo. As historias com que se amedrontam as creanças, os terrores religiosos, pezares profundos e os excessos na comida, são causas frequentes do pesadelo. Muitas vezes é elle produzido pela plenitude do estomago.

«Os meios para fazer cessar esta affecção dimanam naturalmente do conhecimento das causas. Banir o mêdo, dissipar os terrores, procurar distrahir-se, usar de banhos, passeios, observar sobriedade, diminuir ou supprimir totalmente a comida da noite, deitar-se do lado direito e com a cabeça elevada, manter a liberdade de ventre: taes são os meios mais convenientes. Todas as vezes que se podér, convem despertar a pessoa quando a perturbação da respiração, a anxiedade do rosto, o suor do corpo, annunciarem que o pesadelo se declara.»

O que desejamos é que o leitor tenha sempre boas digestões, e, depois d'ellas, os sonhos que mais gratos lhe sejam á phantasia.

EXPLICAÇÃO DOS SONHOS

[Segundo os cabalistas mais notaveis da antiguidade]