A coruja das torres, que toda a gente conhece pelo nome, mas que ainda muita outra a não conhece por a ter visto, inspira horror, susto, desprezo, raiva e odio, pelas crenças de máo agouro, ás mulheres, que isto mesmo transmittem ás creanças, e ainda aos homens, fracos pela ignorancia, que vêem almas do outro mundo, consultão os agouros, as feiticeiras e os adivinhos!

A coruja das torres é a mais bella das tres especies que temos, pela sua leveza, pelo bem pintado de amarello e cinzento sobre o mais bello branco d'algodão, e pelo delicado folho de pennas encrespadas que lhe circumda a cabeça; mas como ave nocturna, para que os raios do sol lhe não firão os olhos, de dia se esconde; e procura para isso as torres e os campanarios das egrejas, os telhados e ainda algumas paredes velhas, aonde encontre buracos, para passar o dia; d'onde sáe pelo crepusculo, quando a luz a não incommoda já.

Suppõe o povo que ella mora nas torres e telhados das egrejas, para roubar e beber o azeite das alampadas, ao passo que ella procura aquelles logares, onde os ratos, sempre damninhos, vivendo á vontade e multiplicando-se, lhe possão servir de sustento.

Se, pousando sobre o telhado de uma casa, deixa ouvir o seu grito rouquenho ou o sopro seguido, que se assemelha ao resonar d'uma pessoa com a bôca aberta, entende o povo que ella chama alguem á sepultura;{17} e com a ideia da noite e visinhanças dos cemiterios, olha a coruja como ave funebre e mensageira da morte; declarando-lhe a guerra mais atroz, sem compaixão nem indulgencia, em logar da benevolencia e gratidão, que devia prestar-lhe, poupando-lhe sempre a vida, pelos bons serviços que esta ave presta á agricultura. De todas as aves nocturnas, nenhuma lhe é mais proveitosa, por ser um creado e guarda fiel, que em quanto dorme o senhor, espreita e dá caça a muitos roedores nocivos, como o rato domestico ou rato commum, o rato campestre, etc., os quaes roubão de noite, roendo os fructos, os grãos e as sementes.

Um outro animal, cuja perseguição é de morte, e a quem attribuem crassos erros, é a cobra, conhecida nas aldeias pelo nome geral de bicha. Talvez concorra tambem para esta aversão, que o povo lhe tem, a magnifica pintura que no Genesis faz Moysés, corporisando o peccado ou antes, a tentação na figura d'uma serpente, a que dá o nome de demonio. A cobra é destituida de palpebras; conservando os olhos abertos, a sua vista, por isso, é fixa, e parece olhar em todas as direcções! Não ha fugir de vista semelhante! Para qualquer lado que se caminhe, a vista da serpente está fixa em nós!

Assim é a tentação! Só lhe póde escapar quem, apoiado na virtude, resoluto lhe volta as costas. Escorregadia, como a serpente e como ella capaz de enroscar-se, só se póde evitar, não a deixando enlear, para não tomar posse, porque depois de apertar, cada vez nos cinge mais. Se a serpente levanta, por algum tempo, a cabeça, é para a abaixar logo; e só caminha de rastos, sempre, vista com repugnancia, como a tentação e o crime, que será sempre rasteiro, vil e abjecto; e que para se não apresentar horripilante, ou{18} ha-de viver enroscado sobre si mesmo, como a serpente, ou, como ella, escondido por entre o matto.

O que é certo é que o olhar d'estes reptis, com a posição da cabeça, cingindo-se ao chão ou elevando-se e estendendo-se, o que faz parecer que uma cobra caminha, sem comtudo saír do mesmo logar, assusta de tal modo os pequenos e timidos animaes, que procurando fugir-lhe, para qualquer lado que se dirigem, encontrão sempre os olhos do seu pequeno inimigo, o qual parece persegui-los; até que cansados, tremulos e atordoados pelo mêdo, approximão-se, máo grado seu, do inimigo que os espera e que lhes dá a morte! Isto tem feito attribuir ás serpentes a faculdade de magnetisar com a vista. Nós mesmos sentimos muitas vezes uma impressão, que quasi nos incommoda, com o olhar de certas pessoas que têm os olhos grandes, saídos, e a vista um pouco fixa; e como fascinados tambem, tentamos desviar dellas os nossos olhos; mas, apesar da impressão um tanto desagradavel, lá se vão sempre encontrar com os outros.

Porém, o erro, mais commum ácerca das cobras, é o de ellas procurarem as mulheres, as vacas e as cabras para mamarem! Que intelligencia lhe concede o vulgo, quando afiança que a cobra para enganar a creança, emquanto mama na mãe que dorme, mette a ponta da cauda na bôca do filho, para elle chupar, suppondo assim ser o bico do peito pela forma cylindro-conica! Como afiança ter encontrado nos curraes cobras debaixo das vacas, sugando-lhes o leite!

A cobra, se mamasse, pertenceria aos mamiferos; daria á luz os filhos vivos, e não poria ovos; teria têtas proprias para alimentação dos filhos, e a sua organisação seria muito differente. Mas ainda mesmo, apesar{19} de tudo isto, se a cobra, por uma especie de lambarice, tentasse mamar, enganando a mãe e o filho com a sua intelligencia, não o poderia fazer em razão da disposição anatomica da sua lingoa e falta de beiços, para poder fazer preza no mamilão e chupar. É verdade que se encontrão algumas vezes nos aidos; mas ahi vão ellas buscar mais elevada temperatura, que o calor do gado fornece áquelles logares.

Não sei como algumas historias, ás quaes não acho fundamento algum, não fôrão desmentidas logo no seu principio; e puderão correr de bôca em bôca, de logar para logar, enchendo o paiz inteiro, e passando até de nação para nação.