Tal é o que contão do ouriço cacheiro. Diz o povo que este pequeno animal se sustenta de fructos, e que para os colher sobe acima das arvores fructeiras, chega aos ramos carregados, abana com elles, deita a fructa ao chão, desce depois e vem rolar-se sobre ella, até ficar coberto, espetando-a nos espinhos que lhe revestem o corpo; e que assim carregado, caminha para o seu buraco, chiando de contente e fazendo tal bulha, como um carro das aldeias, bem carregado, ao qual de proposito fazem chiar o eixo, dizendo que os bois se enthusiasmão com aquella infernal chieira.
Ora o ouriço cacheiro não faz cova na terra para habitar, mas dorme debaixo de hervas que ajunta, ou debaixo de raizes junto dos pés das arvores, ou serve-se d'algum buraco já feito ao pé dos muros ou debaixo de algum montão de pedras.
Come fructos, é verdade, e mesmo algumas raizes, quando não tem para comer os insectos, que são o seu verdadeiro sustento; assim como a carne dos animaes que encontra mortos: e uma cousa que tem sido notada por alguns naturalistas, e poder elle comer{20} com grande vontade, sem experimentar incommodo algum, as cantharidas aos centos, quando nos outros animaes são veneno tão forte, que basta uma para causar tormentos horriveis num cão ou num gato, e tres ou quatro serão sufficientes para darem a morte ao homem.
Quer o povo que este animal suba, e vá abanar a fructa das arvores. Mas, como ha-de elle trepar, se não póde?
Nem tem a flexibilidade e agilidade para isso, nem os membros conformados de tal modo, que o possa fazer, nem unhas para se poder segurar.
É tão fraco trepador, que, para subir a uma pequena pedra, emprega todos os esforços, firmando a cabeça, sem ás vezes o poder conseguir.
Lembra-me dizer aqui, que os espinhos da pelle d'este animal são proveitosos para as preparações de historia natural, que têm de estar em alcool; servindo em logar de alfinetes, por se não estragarem, oxydando-se, nem estragarem as preparações; assim como tambem podem servir, pela mesma razão, para segurarem os insectos nos quadros.
Porém, nada mais grosseiro e vergonhoso do que a metamorphose do cabello em cobra! Um cabello deitado em agoa transforma-se numa cobra muito fina: diz o pensar mais rude!
Este absurdo é de tal grandeza, que não gastarei palavras para o mostrar; mas direi sómente que a pretendida cobra é uma espécie de filaria; animal filiforme, commum nos regatos e nas agoas pouco correntes, chegando a um metro e ás vezes a tres e quatro de comprido, negro ou acastanhado; e como se tem encontrado algumas vezes nas agoas, aonde o gado costuma ir beber, e deixa muitas vezes os cabellos,{21} coçando-se, o povo ao vêr estes helmintos juntos com os cabellos, decidiu logo a metamorphose d'estes nos animaes, aos quaes por serem finos e compridos, lhes chamárão cobras!
Estes animaes costumão dar voltas sobre si, mettendo as extremidades por entre ellas, como as pontas d'um nó, e quando morrem, parece terem dado um nó perfeito.