Tambem terás ouvido dizer que as andorinhas vão á beira do mar procurar e escolher uma pedrinha, conhecida pela pedra das andorinhas; e vem com ella no bico para abrir no ninho os olhos aos filhos, que sem esta operação os não abrem! E como é procurada a tal pedrinha e estimada por algumas pessoas, para, pela sua virtude, tirarem os argueiros dos olhos! E de certo precisão bem d'ella, pois devem andar com elles bem cobertos de poeira! A tal pedrinha é um seixo chato e bem polido pelo mar, ou mesmo um bocado de uma concha preta, que o mar tenha tornado bem lisa e macia! Que graça! as andorinhas feitas operadoras da catarata dos proprios filhos!
Muito mais teria que dize-te sobre estes grosseiros prejuizos, como da amizade que as cobras têm aos homens; da sympathia que os sardões têm para com as mulheres; e d'outras muitas babuseiras e erros prejudiciaes, mas hoje ficarei por aqui.
Adeos até outra occasião.
Teu amigo==A. Luso.{22}
[[1]]Augusto Luso.
CONTINUAÇÃO DOS ERROS ÁCERCA DE ALGUNS ANIMAES
Os erros ácerca dos animaes são tão variados, tão extravagantes e tantos, que ainda hoje te fallarei de mais alguns; e quantos haverá de que não tenho conhecimento?
Hoje é bem conhecida a utilidade dos sapos na agricultura, pelo devaste que fazem nos insectos, nas lagartas, nos caracoes, etc., chegando a ser procurados para as estufas, como remedio contra aquelles animaes, que devorão e estragão as plantas. Porém é tal a aversão que o povo lhes tem, talvez pela sua fórma e vista, pouco agradavel, como em geral é a de quasi todos os reptis, que chega mesmo a dizer que se deve cuspir trez vezes fóra, todas as vezes que se fallar em sapo, para que não nasção sapinhos na bôca! É tal o odio que lhes tem, attribuindo-lhes o perigo de veneno ou peçonha, como vulgarmente dizem, que se não satisfazem só com os matar, mas sómente em lhes dar uma morte cruel, espetando-os e atormentando-os, deixando-os morrer lentamente; quando estes innocentes animaes, além do bem que nos fazem, como já disse, não podem fazer mal a ninguem, pois não têm armas de que se possão servir para isso; apenas, em sendo muito apoquentados e atormentados, expellem pelo anus um liquido um tanto acre, mas que nem elle, nem a baba, como dizem, são venenosos. Reproduzem-se com tanta facilidade e em tanta abundancia, e desenvolvem-se tanto com o calor e humidade, que, ás vezes, com as primeiras chuvas de maio, são{23} tantos, que por isso e pelos saltos e pulos que dão, coincidindo com a quéda das gotas da chuva, em muitas partes dizem que chovem sapos!
A respeito do pretendido veneno ou peçonha, deves saber que são poucos os animaes, exceptuando os mamiferos, as aves e os peixes, aos quaes o nosso povo não attribua veneno, a ponto de julgar passagem de bicho que deixára rasto venenoso ou peçonhento, a quaesquer feridas que apparecem no corpo das creanças, persuadindo-se que matando o bicho, desapparece a peçonha e logo o mal. Mas, como não sabem qual fôra o genero, nem a especie do bicho que por alli passára, applicão logo um remedio geral para toda a sorte de bicho, dizendo:
Eu te talho, bicho, bichão;
Sapo, sapão;
Aranha, aranhão;
Bicho de toda a nação:
Em louvor de S. Silvestre,
Quanto faço tudo preste,
E de nosso Senhor,
Que é o verdadeiro Mestre.