O veneno da tarantula, aranha bem commum na Italia, Hespanha e Portugal, foi tido como causa de effeitos terriveis, deixando atarantados ou em convulsões horriveis os mordidos por ella, e receitando-se até como remedio a musica. Mas hoje, dizem que é bem sabido, que o veneno d'estas aranhas não é perigoso senão para os insectos que lhes servem de sustento.

Has-de ter visto os nossos pescadores andarem pelas ruas vendendo alguns polypeiros petrosos, a que chamam arvores do mar. Não estranho que elles lhes chamem arvores do mar. Porém estranho que pessoas de instrucção, dadas ás letras, nada queirão saber da sciencia e se contentem com a lição do pobre pescador, repetindo o mesmo, e até ensinando, que as madréporas, astréas, fungias, etc., são tortulhos e arvores do mar, sem fazerem ideia, já se vê, do que é uma arvore, nem dos pobres animaes que caírão nas suas mãos e debaixo das suas vistas, que tão mal os olharão; porém para maior esclarecimento e maior disparate acrescentão os que já não precisão de estudar—são arvores do mar petrificadas.

Poderia continuar a fallar-te de mais alguns d'estes erros, mas receio enfadar-te, e por isso fico por aqui.{28} Emquanto aos curiosos animaes que habitão a nossa costa da Foz, da Granja, Mattosinhos e Leça, terei talvez ainda occasião de te fallar d'elles em particular; pois são uma distracção nos solitarios passeios á beira-mar, amenisando o que parecia monotono, e tornando habitado o que parecia deserto, achando nós companhia aonde nos julgavamos sós.

Adeos até outra occasião.

Teu amigo==A. Luso.{29}

O NOIVADO DO SEPULCHRO

(BALLADA)

Vae alta a lua! na mansão da morte
Já meia noite, com vagar soou;
Que paz tranquilla! dos vaivens da sorte,
Só tem descanço quem alli baixou.
Que paz tranquilla!... mas ao longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu:
Branco phantasma, semelhando um monge,
D'entre os sepulchros a cabeça ergueu.
Ergueu-se ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cypreste,
O mocho pia na marmorea cruz.{30}
Ergueu-se, ergueu-se, com sombrio espanto,
Olhou em roda... não achou ninguem...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.
Chegando perto d'uma cruz alçada,
Que entre os cyprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se, e com voz maguada
Os éccos tristes accordou assim:
«Mulher formosa, que adorei na vida,
E que na tumba não cessei d'amar;
Porque atraiçôas desleal, mentida,
O amor eterno que te ouvi jurar?
«Amor! engano, que a campa finda,
Que a morte despe d'illusão fallaz;
Quem d'entre os vivos se lembrará ainda
Do pobre morto que na terra jaz?
«Abandonado n'este chão repousa;
Ha já tres dias, e não vens aqui...
Ai! quão pesada me tem sido a lousa
Sobre este peito que bateu por ti!
«Ai! quão pesada me tem sido!» e em meio,
A fronte exhausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.{31}
«Talvez que rindo dos protestos nossos,
Gozes com outro d'infernal prazer;
E o olvido cobrirá meus ossos
Na fria terra, sem vingança ter!
—«Oh! nunca, nunca!» de saudade infinda
Responde um écco-suspirando além...
«Oh! nunca, nunca!» repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.
Cobrem-lhe as fórmas divinaes, airosas,
Longas roupagens de nevada côr;
Singéla c'rôa de virgineas rosas,
Lhe cerca a fronte d'um mortal pallôr.
«Não, não perdeste meu amor jurado;
Vês este peito! reina a morte aqui...
E já sem forças, ai de mim, gelado,
Mas ainda pulsa com amor por ti.
«Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
Da sepultura, succumbindo á dor;
Deixei a vida... que importava o mundo,
O mundo em trevas sem a luz do amor?
«Saudosa ao longe vês no céo a lua?
—Oh! vejo, sim... recordação fatal!
—Foi á luz d'ella que jurei ser tua,
—Durante a vida, e na mansão final.{32}
«Oh! vem! se nunca te cingi ao peito,
Hoje o sepulchro nos reune emfim...
Quero o repouso do teu frio leito,
Quero-te unido para sempre a mim!»
E ao som dos pios do cantor funéreo,
E á luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulchral mysterio,
Foi celebrado, d'infeliz amor.
Quando risonho despontava o dia,
Já d'esse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vasia,
Quebrada lousa por ignara mão.
Porem, mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dous esqueletos um ao outro unido,
Foram achados n'um sepulchro só.{33}

AO MEU GATO

Ai! meu pobre animal unicos restos
do meu viver de então;
Companheiro nos dias tão funestos
e d'esta solidão.
Ficaste ainda assim ao meu abrigo
para me acompanhar,
Tu agora, talvez unico amigo
que sabe o meu penar.
Tua dona morreu: Já não existe
quem te affagava emfim;
Hoje pobre animal, tu hoje triste
só me possues a mim.
Como tudo mudou, como perdida
nos foi a nossa luz;
e cada qual de nós em sua lida
tem hoje a sua cruz.{34}
Hoje é tudo deserto, o lar sem lume
para te conchegar
que foi-se-nos da vida esse perfume
o conforto do lar
Ai! meu pobre animal tão resignado,
me vens agradecer
não me olvidar, embora fatigado
de dar-te de comer.
Mas tu tambem não comes, tambem sente
teu seio cruel dor,
porque ás vezes me fitas de repente
com bem triste amargor.
Que fazemos nós ambos sem conforto
n'este deserto assim!
Oh! vamo-nos embora d'este horto
partamos já emfim.
Nem eu, nem tu já temos alegria,
tudo vimos morrer;
que fazemos aqui de noite e dia?
apenas só gemer.
Oh! vamo-nos embora e bem depressa
que já não póde mais o coração,
acabe-se o tormento que não cessa,
fujamos d'esta triste solidão.