—É verdade, disse Thomé desanimado, quem rouba não pode ter uma vida livre.
—Os meninos ricos, tornou Joanninha, de certo passariam melhor vida, se não vivessem tão sósinhos como o principe.
—
Á noite não poderam ir para a caixa das vistas maravilhosas porque a avó nunca lhes deu tempo de sahirem da cozinha, e o pai foi para casa muito cedo. Por isso ainda mais desejavam que chegasse a occasião de poderem lá tornar.
Quando essa occasião chegou, viram um quarto muito bonito, não tão admiravel como a sala do principe, mas muito mais bonito do que o quarto da madrinha, com alcatifas de varias côres e bellos quadros nas paredes. O quarto estava cheio de lindas cousas para brincarem meninos e meninas. Um bonito quarto de bonecas, com senhoras e senhores muito bem vestidos, com sophás, cadeiras e caminhas pequenas, e uma cozinha cheia de louças brancas, panellas e pratos, muito mais do que havia na cozinha da avó; bonecas pequenas e grandes, quasi da altura de Joanninha, berços e cadeirinhas; e de outro lado um castello com soldados, e uma loja muito enfeitada com{17} uvas seccas, amendoas, confeitos e figos, e um carro com bahús e saccos, e lindos livros de estampas; em uma palavra, eram quasi tantas cousas como tinha o principe. Thomé e Joanninha não cabiam em si de contentamento e admiração.
Então entraram no quarto os donos de todas aquellas riquezas, que eram duas meninas e um menino. Parecia que vinham de passear. As meninas correram para as bonecas e o menino para a loja. Uma foi com um dinheiro pequenino e brilhante comprar dôces ao irmão, a outra começou a vestir as suas bonecas de uma caixinha cheia de ricos vestidos e chapelinhos.
Ah, como ficaram tristes Thomé e Joanninha quando a avó os chamou para a ceia, e como sonhavam, a dormir e acordados, com aquellas bonitas cousas, e como correram na manhã seguinte á caixa para continuarem a vêr como eram felizes os tres irmãos!
Mas já não era tudo tão bonito no quarto; as bonecas estavam no chão, e uma das meninas estava a chorar e a gritar; tinha deixado de noite as bonecas no chão e a porta do quarto aberta; a gata tinha entrado, tinha brincado com a boneca, e rasgou-lhe os vestidos de sêda e estragou-lhe as côres.
—A culpa é tua, gritou um dos meninos, porque não pozeste as cousas em ordem.
—Eu é que não tive culpa nenhuma, gritou a outra.