Depois a mocidade foi passando, mas as boas obras davam alegria ao coração, o bom anjo da oração tinha entrado em casa, e fazia d'aquella socegada choupaninha um templo da paz e do amor.
Os meninos não tinham desejos de tornar a olhar para o espelho do anão, porque entendiam que não lhes podia mostrar cousas melhores do que aquella sua vida caseira, principalmente quando veio a branda primavera, e elles pensaram como haviam de dar alegria á sua casinha no proximo inverno.
Disseram-me que Thomé, passados annos, quando o pai e a avó já eram mortos, tinham corrido algumas terras, e veio a ser um habil e robusto carpinteiro que ajudou a construir muito bonitas casas e fez para si uma casinha muito aprazivel. Joanninha tinha ido para casa do padrinho, e veio a ser uma menina muito prendada e depois uma esperta aldean e boa mãi de filhos saudaveis.{24}
Os dous irmãos viveram sempre contentes com a sorte que Deus lhes deu, e quando viam de longe casas ricas, ou ricos vestidos ou custosas golosices, diziam comsigo: Aquillo talvez seja de um pobre principe, ou de algum menino de mau genio ou de alguma Emma doente.{25}
[O CASTELLO ENCANTADO
OU
O MONTE DO CASTELLO DAS FADAS]
[TRADIÇÃO PRUSSIANA]
Ao pé do rio Memer, e não longe da cidade de Tilsit, levanta-se um monte alto e redondo que se chama o monte do castello. Ha muitos e muitos annos houve alli um grande castello, como ainda hoje se póde vêr pelas ruinas das paredes, e por um fosso muito fundo e duas linhas de muralhas que estão de redor. A quem pertence e quem agora lá mora, é cousa de que ninguem sabe dar noticia, mas corre na terra uma tradição que reza que elle se aluiu de repente, e ainda hoje se mostra no cume do monte, mesmo no meio d'elle, um largo e escuro boqueirão, cujo fundo ainda ninguem pôde achar com cordas: diz-se que deve ter sido a chaminé do antigo castello. N'esses muros derribados reza a mesma tradição que é guardado um thesouro immenso por um porteiro, velhinho de cabellos brancos, que já tem sido visto muitas vezes pelos viajantes que sobem ao monte, e que ninguem até hoje tem podido ir aproveitar-se d'elle.{26}
Um dia andavam muitos rapazes de uma aldeia proxima de Tilsit a pastorear gado no monte do castello. O dia ia em mais de meio, o sol queimava e os rapazes deitaram-se á sombra de um rosal bravo e pozeram-se a contar historias. Entre outras cousas fallaram no muito ouro que estava no monte por debaixo d'elles, e mostraram desejos de que lhes apparecesse o porteiro do castello para irem atraz d'elle e deitarem mão ao thesouro. Mas mostravam esse animo por ser dia claro, porque nenhum d'elles era capaz de se deixar ficar só no monte do castello depois de escurecer.
—Sim, dizia o mais novo, fazia-me boa conta o ouro, e ainda mais a minha mãi que está velha, corcovada e trôpega e ainda se assenta á roda de fiar, ganhando assim com muito trabalho mas honestamente o escasso pão de cada dia; que alegria não seria a d'ella se eu podesse levar-lhe para casa uma boa mão cheia de dinheiro! Mas eu não quero nada com o tal phantasma do homem pequenino.
—Tolo! disseram os outros, elle não faz mal a ninguem; provavelmente descançaria e não lhe seria preciso andar a vaguear pelo monte, se alguem achasse o thesouro, porque então não teria mais que guardar.