Á noite a avó adormeceu cedo, mas elles mal se atreviam a ir ao vidro receando que acabasse por cousas{20} tristes. Comtudo sempre foram. D'esta vez chegaram a gritar ambos ao mesmo tempo em voz um pouco alta: Isto é o nosso quarto e nós n'elle!
E na verdade assim era, mas o quarto era mais alumiado e mais alegre, estava com mais ordem e mais aceio e limpeza, as vidraças sujas estavam bem lavadas, na janella havia em vasos um par de plantasinhas da floresta, como Joanninha as conhecia bem, de umas que nasciam mesmo com a neve; em uma gaiola de vimes, como Thomé já tinha visto fazer aos rapazes da aldeia, saltava um passarinho, que parecia estar melhor n'aquelle quarto agasalhado do que estaria livre ao ar frio, porque cantava e trinava que era um gosto ouvil-o. E a avó assentou-se á roda de fiar e Joanninha ao pé d'ella e Thomé a pequena distancia e não estavam aborrecidos e tristes como era d'antes; e cantavam uma bonita canção que já tinham aprendido na escóla e que nunca se tinham lembrado de cantar em casa. Cantavam tão suavemente que a avó, que percebia alguma cousa, piscava os olhos de contentamento. Por fim quando acabaram de cantar, o Thomé que elles viam lá dentro pegou em um grande livro que já ha muito tempo estava cheio de pó no sobrecéo da cama da avó, desde que ella nem com as lunetas podia lêr. Thomé e Joanninha olhavam espantados, porque era verdade que sabiam lêr, mas lêr em casa era cousa em que nunca tinham pensado. O Thomé do vidro começou a lêr em voz alta de maneira que a avó o ouvia; ao principio não foi tão correntemente como o verdadeiro Thomé teria lido, mas não tardou que fosse melhor. Era a historia de S. José, que os meninos já tinham ouvido, mas já ha muito tempo, e agora parecia-lhe tão cheia de novidade e de belleza que ao Thomé do vidro escutavam com toda a attenção,{21} até que se ouviu um latido de cão. Era tambem exactamente como o latir do Fiel.
E a Joanninha que se via lá dentro levantou-se, poz um par de sapatos velhos ao calor do lume e dependurou tambem ao calor do lar uma jaqueta velha do pai, e quando o pai entrou com Fiel, tirou-lhe Thomé a jaqueta molhada e pegou-lhe na espingarda, e Joanninha deu-lhe os sapatos quentes e a jaqueta bem enxuta.
Thomé e Joanninha olhavam pasmados para aquelles cuidados com que trabalhavam as suas imagens dentro do vidro. Até então tinham visto o pai entrar e sahir sem ao menos pensarem em cuidar d'elle. O pai que elles viam pelo vidro estava muito admirado d'aquelles cuidados de seus filhos e mostrava-se muito mais meigo do que o verdadeiro pai costumava ser. Elle assentou-se á mesa, e Joanninha tinha uma ceia bem quente no lar, cousa que nunca lhe tinha lembrado, porque tambem a avó nunca pensava n'isso, e o pai batia-lhes no hombro, o que elle nunca tinha feito, e começou a fallar da mãi que Deus tinha levado para si, e que tambem cuidava muito d'elle; e tudo isso encantava tanto Joanninha e Thomé que não tinham vontade de tirar os olhos do vidro: mas a avó chamou por elles para se deitarem.
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Na manhã seguinte começaram Thomé e Joanninha a viver uma vida muito differente. Joanninha limpava{22} e espanava, punha tudo em ordem e lavava a janella, de maneira que a avó, a quem aquillo parecia um sonho, perguntava: Então isto agora é uma igreja?—Como ainda não era tempo de flôres, Thomé levou do bosque alguns ramos verdes de faia, com os quaes adornou muito bem a sala. Depois ajudaram de boa vontade a avó a fazer o almoço, cousa que nunca tinham feito, e quando o comeram soube-lhes melhor do que nos outros dias. Depois assentou-se Joanninha com a roca ao pé da avó, e Thomé subiu a uma cadeira e abriu a Biblia, que estava cheia de pó como a que viram pelo vidro, e começou a soletrar. A avó escutou com muita attenção, e quando elle começou a lêr correntemente e ella ouviu pela primeira vez da bocca de seu neto a palavra de Deus, o seu coração cheio de annos sentiu-se mais novo, e ella ergueu as mãos ao céo, e não tirava de Thomé os seus olhos arrasados de lagrimas de alegria. Thomé ficou muito contente vendo o effeito da sua leitura e lia cada vez com mais fogo, e Joanninha escutava e fiava e não reparava como a manhã se passava depressa, até que a avó, que tinha o relogio na cabeça, se levantou para cozer as batatas. Então levantou-se Thomé e disse: Espere, avosinha, que eu ajudo-a.
Foram ambos os netos tirar agua ao poço e a avó não cabia em si de alegria. Nunca tinham comido tão boas batatas. De tarde lembrou-lhes cantar, e começaram baixinho, e depois foram subindo a voz, e a avó escutava ao principio como se sonhasse, e sorria com um contentamento como ha muitos annos não tinha tido.
Como passaram satisfeitos até que o pai chegou! E como elle se mostrou admirado d'aquelles cuidados que via nos filhos e que nunca mais vira desde{23} que sua mulher fôra para a sepultura. Aqueceu-se com o fato que elles lhe deram, e encantado com aquellas meiguices dos meninos começou a contar muitas cousas da sua querida Margarida que estava no céo. A avó escutava com grande alegria e de tempos a tempos dizia alguma cousa. Antes de irem deitar-se disse ella ao pai: Tu deves vêr como Thomé lê bem.
E foi buscar o seu velho livro de orações da noite. O pai, que já ha muitos annos não se lembrava de orações, escutou com viva alegria, e a voz de Thomé levava-lhe as santas palavras ao coração, que se abria para Deus. Quando Thomé fechou o livro, ergueu o pai as mãos ao céo e rezou.
Thomé e Joanninha nunca dormiram um somno tão dôce como n'essa noite.