Os caudatarios apalpárão o chão, como se quizessem levantar a cauda do manto, e caminhárão com os braços estendidos como se segurassem alguma cousa, não querendo dar a entender que não vião nada.

Assim caminhava o rei debaixo do magnifico pallio, e toda a gente da rua e das janellas exclamava:—Que sumptuoso vestido! que bella cauda tem o manto! o feitio é irreprehensivel!—Ninguem queria dar a conhecer que não via nada, para não ser taxado de estupido ou incapaz de exercer o seu emprego. Nunca fato algum do rei tinha dado tanto na vista.

—Mas o rei vae nú;—gritou uma creancinha.

—Meu Deus! escutae a voz da innocencia—disse o pae.

Immediatamente correu por toda a multidão, que{42} uma creança dissera que o rei ia nú; e a final exclamárão todos á uma:—O rei vae nú!

Este sentiu-se extremamente mortificado, porque lhe parecia que tinha razão; mas cobrou animo e disse comsigo:—Seja o que for, é indispensavel que eu fique até ao fim.—Depois tomou uns ares ainda mais magestosos, e os caudatarios continuarão a segurar, com todo o respeito, a cauda que não existia.

[AS FADAS
OU
A MENINA BEM CREADA]

Era uma vez uma viuva, que tinha duas filhas; a mais velha parecia-se tanto no genio e na cara com a mãe, que quem via uma, via a outra. Ambas eram tão orgulhosas e tão desagradaveis, que se não podia viver com ellas. A mais moça, que era o retrato de seu pae, pela bondade, era ao mesmo tempo uma das mais lindas raparigas que se podiam ver. Como naturalmente{43} se ama o seu similhante, esta mãe era douda por sua filha mais velha, e ao mesmo tempo tinha uma forte aversão para a mais nova, que mandava comer na cozinha, e trabalhar continuamente.

Entre outras cousas era preciso que esta menina fosse duas vezes por dia buscar, a uma meia legua grande de sua casa, um grande cantaro cheio de agua. Um dia, que a infeliz creança estava n'esta fonte, chegou-se a ella uma pobre mulher, e lhe pediu que a deixasse beber.—Pois não! minha senhora, disse esta bella menina; e dizendo estas palavras, tomou agua no melhor sitio da fonte, e lh'a apresentou, sustendo o seu cantaro, para que ella podesse beber mais facilmente. A boa mulher, tendo bebido, lhe disse:—A menina é tão bonita, tão boa, é tão bem creiada, que não posso deixar de lhe fazer um dom. (Era uma Fada, que tinha tomado figura de uma pobre aldeã, para ver até onde iria a boa educação d'esta menina.) Eu dou-lhe por dom, continuou a fada, que a cada palavra que disser, sair-lhe-ha da bôca uma flor e uma pedra preciosa. Quando esta boa menina chegou a casa, a mãe ralhou-lhe por haver tardado tanto tempo.—Perdoe-me, minha mãe, por ter tardado. E dizendo estas palavras, deitou pela bôca duas rosas, duas perolas, e tres bons diamantes.—Que é isto? disse a mãe, admirada. Quem te deu isto, minha filha? (Era a primeira vez que a tratava por sua filha.) A pobre menina contou-lhe tudo o que lhe tinha acontecido, não sem deitar pela bôca uma infinidade de diamantes.—Realmente, disse a mãe, vou mandar lá tua irmã. Vem cá, Mariquinhas, vem ver o que sáe da bôca de tua irmã quando ella falla; queres tu ter o mesmo dom? Vae buscar agua á fonte, e quando uma pobre mulher{44} te pedir de beber, dá-lh'a com muita civilidade.—Pois não! respondeu a mal-creada; eu ir á fonte!—Quero que lá vás, disse a mãe, e já. Maria foi, mas resmungando. Pegou no mais bonito jarro de prata que havia na casa, e chegou á fonte. Viu logo sair da floresta uma dama magnificamente vestida, que lhe pediu agua para beber. Era a mesma Fada que tinha apparecido a sua irmã, mas que tinha tomado a figura e os vestidos de uma princeza, para ver até onde iria a má creação d'esta rapariga. Porventura eu vim cá para lhe dar de beber? disse a mal-creada orgulhosa. Era o que me faltava trazer eu um jarro de prata para dar de beber á senhora: ora beba na fonte, se quizer.—Sois bem pouco politica! replicou a Fada, sem se encolerisar. Pois bem, já que é tão mal-creada dou-lhe por dom, que a cada palavra que disser, sair-lhe-ha da bôca uma serpente e um sapo. Voltou a casa, e sua mãe gritou:—Minha filha! minha filha! então que ha?—Nada, minha mãe! respondeu ella, deitando pela bôca duas serpentes e um sapo.—Oh céos! exclamou a mãe; que vejo! É tua irmã que tem a culpa; ha de pagar-m'o. E dizendo estas palavras, correu a ella para lhe bater.

A pobre menina fugiu para a floresta visinha. O filho do rei, que voltava da caça, encontrou-a, e vendo-a tão linda, perguntou-lhe o que ella fazia alli sósinha, e porque chorava!—Oh! meu senhor, é porque minha mãe pôz-me fóra de casa. O filho do rei, que viu sair-lhe da bôca seis perolas e seis diamantes, pediu-lhe que lhe dissesse d'onde isto vinha. Ella contou toda a sua historia. O filho do rei ficou namorado d'ella; e considerando que um tal dom valia mais que tudo o que se podia dar em dote a uma princeza, levou-a{45} para o palacio de el-rei seu pae, onde casou com ella. Sua irmã fez-se aborrecer tanto, que sua propria mãe a pôz fóra de casa; e esta desgraçada, depois de ter corrido bastante sem achar ninguem que quizesse recolhel-a, morreu no meio de um bosque.