[A RAPARIGUINHA DOS LUMES PROMPTOS]
(Andersen—traducção de José Joaquim Rodrigues de Freitas.)
Estava horrivelmente frio, geava, e era quasi noite escura, a ultima do anno.
Estava assim escuro e frio, quando caminhava pela rua uma rapariguinha com os pés nús e a cabeça descoberta. Tinha calçado chinelas ao sair de casa, mas de que lhe servírão? Erão muito grandes, e tanto, que a mãe as tinha usado até então; demais, a pequena perdeu-as ao atravessar á pressa uma rua, fugindo de dois carros que rodávão com velocidade de pôr medo. Uma das chinelas não a poude tornar a achar; e a outra apanhou-a um rapaz, e lá foi a correr com ella; até se lembrou que lhe serviria de berço, caso viesse a ter filhos.
Assim caminhou a rapariguinha com os pésinhos{46} nús e rôxos de frio. Trazia num avental velho uma porção de lumes promptos, e na mão um maço d'elles. Ninguem lhe comprára nada todo o dia, ninguem lhe fizera presente de cinco réis.
Imagem da miseria, a pobre pequena ia-se arrastando a tremer de frio e fome!
Os flocos de neve cobrião-lhe o cabello comprido e louro, que em formosos anneis lhe caía pelo collo abaixo; mas, em verdade, n'isto pensava ella!
De todas as janellas brilhavão luzes; e vinha de lá um delicioso cheiro a ganso assado; era a noite de S. Silvestre; e n'isto pensava ella!
A um canto formado por duas casas, uma das quaes era mais saliente do que a outra, sentou-se ella, e, como poude, conchegou-se; metteu bem para dentro os pésinhos, mas ainda mais lhe arrefecêrão; e não ousava ir para casa por não ter vendido phosphoros, nem arranjado dinheiro.
Bem sabia que o pae lhe havia de bater, e em casa tambem estava frio; cobria-a só o telhado, pelo qual o vento assobiava, ainda quando se tapavão os buracos maiores com palha e farrapos.