O frio quasi lhe não deixava mover as mãos.
Ah! um lume prompto podia fazer-lhe bem; se tirasse um do mólho, se o accendesse na parede, e se aquecesse a elle os dedos!
Tirou um. Zahs! Como scintillava, como ardia! Era uma chamma quente e brilhante, era uma luzinha; poz sobre ella as mãos, era uma luzinha maravilhosa. Á rapariguinha pareceu que estava deante de um grande fogão de ferro todo guarnecido de latão polido. Abençoado fogo, que tão bem aquecia! Mas a chammasinha apaga-se, o fogão desapparece, ficárão-lhe na mão só os restos do lume prompto que ardêra.{47}
Accendeu outro na parede, este alumiava e tornava transparentes como um véo os logares da parede em que os seus raios incidião: podia assim vêr para dentro da sala.
A mesa tinha uma toalha branca de neve, sobre a qual luzia louça de porcellana; o ganso assado, cheio de maçãs e ameixas sêcas, exhalava deliciosos vapores. E o que ainda era mais bello: o ganso saltava do prato abaixo, cambaleava pelo chão adeante, e vinha até á pobre creança, trazendo no peito a faca e o garfo.
Lá se apagou o lume prompto, e só ficou a parede, espessa, fria e humida.
Ella accendeu ainda um phosphoro. E eis que lhe pareceu estar sob a magestosa arvore do Natal, ainda maior e mais adornada, que a outra que vira ao travéz da janella da casa d'um rico negociante. Milhares de luzes ardiam nos ramos verdes; e imagens variegadas, como numa vitrina, olhavão para a rapariga. A pequena estendeu para ellas as mãos; e eis que se apagou o lume prompto.
As luzes do Natal subirão mais e mais; parecião-lhe estrellas no céo; uma d'ellas caiu formando longo rasto luminoso.
Alguem que morre, disse comsigo a rapariguinha; porque a avó, unica que lhe tivera amor, e que já era fallecida, lhe contára que uma alma sobe para Deos, quando uma estrella cáe para a terra.
Accendeu mais outro phosphoro; a luz fêz-se de novo, e no meio do brilho d'ella erguia-se a velha avó, tão resplendente e pura, tão cheia de doçura e de amor!