—Avósinha, conte-nos hoje uma historia, ainda que seja pequenina: ainda ha-de saber alguma.
—Não sei nenhuma, rapaz, resmungou a velha, mesmo nenhuma. Esqueceram-me todas.
—Só uma, avósinha; conte do anão da pedreira.
—Da pedreira, ah, sim, rapaz, espera; deixa vêr se me lembra. Onde está a grande pedreira, em baixo no barranco era em outro tempo uma rocha forte e a prumo como um muro, d'onde nunca tinha sahido nenhuma pedra, e defronte da rocha havia um pedaço de terreno coberto de viçosa verdura: por debaixo moravam os anões; descia-se por degraus ao pequenino castello da rainha dos anões, e debaixo da terra era uma cidade muito bonita. Na floresta não entravam caçadores nem cortadores de lenha nem montantes, e nos dias de sol subiam todos os anões e assoalhavam-se no musgo verde, e faziam banquetes e dançavam com muita alegria. Um dia começaram os homens de fóra a levantar casas na planicie, e entraram na floresta e cortaram arvores, e acarretaram grandes pedras para fóra. Ficou tudo cheio da entulho de redor do bello rochedo que ficava defronte do terreno cheio de verdura, e de redor da cidade dos anões. Para que os homens não podessem cortar mais pedras, foram os anões de noite todos juntos á floresta e cortaram pedras muito grandes e levaram-nas de rodo com toda a força até á entrada da mata. Os homens descontentes foram á rocha e fizeram saltar as pedras em pedaços,{6} e ellas cahiam com grande estrondo no prado. Assim ficou toda arruinada a bonita cidade dos anões, e houve muitas lagrimas e sentimento: Os anões que não tinham sido mortos, escavaram um subterraneo fóra do bosque. Lá vivem agora, e se edificaram outra cidade é cousa que não se sabe. Desde então tem rodado para fóra muitas pedras de noite; mas estão sempre a cahir outras lá dentro, e todos os annos na noite de S. Thomé, sahem elles para verem se ainda ha muitas pedras no terreno, e a quem de lá tirar n'essa noite tres pedras, não negam os anões cousa nenhuma que lhes seja pedida.
Assim contou a avó. Havia muito tempo que ella não tinha fallado tanto, e estava cançada. Joanninha estava cheia de medo e chegava-se muito para ella, mas Thomé, com as faces ardentes e olhos brilhantes, pensava na historia e bem quizera saber se os anões ainda appareciam.
Então Fiel ladrou fóra, e entrou o pai, cançado, carrancudo e gelado; mesmo ás escuras procurou alguma coasa que podesse comer; mas a velha esquecia-se d'elle muitas vezes, e elle teve de deitar-se com fome. No inverno dormia a avó na alcova e Joanninha com ella, e o pai com Thomé na salinha proxima. O pai, depois de pegar a dormir, roncava toda a noite, e não havia nada n'este mundo que o acordasse, só se fosse algum tiro dado na mata.
N'essa noite Thomé não podia dormir. Não era a primeira vez que elle ouvia contar a historia dos anões; mas nunca tinha sabido que estavam tão perto e que ainda appareciam. Batia-lhe o coração com desejos anciosos, pensando que podia com as riquezas dos anões alegrar aquella miseravel solidão dos bosques. E faltavam só dous dias para o S. Thomé!{7}
Não pôde calar-se que não dissesse na manhã seguinte ao ouvido de Joanninha:
—Joanninha, depois de amanhã, é o dia de S. Thomé; vamos tirar pedras do territorio dos anões.
Mas Joanninha olhou para elle com olhos espantados, e disse: