—Ora essa! Tu não vês que é só uma historia do que já passou ha mais de cem annos? E demais, eu morreria de medo se sahisse de noite.

Thomé ficou entendendo que nada faria com aquella maricas, apesar de Joanninha ser mais velha, e calou-se com o seu projecto.

Na noite de S. Thomé foi o pai cedo para casa, e antes de ter a avó apagado o candieiro já elle dormia como uma pedra. Thomé esperou que Joanninha tambem adormecesse; a avó sabia elle que não o ouviria ainda que estivesse acordada. Não tardou muito que tudo fosse silencio: elle não se tinha despido, puxou o barrete de pelles para as orelhas e sahiu. Fiel não estava acostumado a vêr sahir Thomé sosinho; e ficou muito espantado e resmungou quando Thomé lhe poz a mão pela cabeça.

A lua ainda brilhava clara, e no bosque havia um silencio de cemiterio que assustava Thomé; mas tomou animo, e metteu-se com passos ligeiros e firmes ao bem conhecido caminho da grande pedreira. Não se ouvia o mais leve murmurio quando elle entrou no barranco, e então estremeceu vendo a rocha escavada em que mal entrava um raio da lua. Com passos tremulos{8} foi andando até ao lugar onde tinha sido o territorio dos anões, e onde só havia então uma grande quantidade de pedras grandes e pequenas. Com as mãos a tremer, agarrou nas maiores que pôde levantar, e levou-as para fóra.

—Quem está ahi? perguntou uma voz fina, quando elle deitava fóra a ultima.

No unico lugar que a lua alumiava no barranco estava um homem muito pequeno vestido de verde, que era o que perguntava a Thomé:

—Quem está ahi?

—Sou o Thomé do guarda-matas, disse elle muito embaraçado, e tirando com todo o respeito o barrete.

—Que queres d'aqui?