—Só queria tirar pedras para que os senhores podessem viver aqui debaixo.

—Pouco podes fazer, disse o anão com tristeza, mas é uma boa obra que deve ser recompensada. O que é que desejas mais?

Thomé já tinha pensado em muitas cousas, mas n'aquella occasião não lhe lembrava quasi nada. Lembrou-se de um cavallo em que elle podesse ir á escola, de uma pipa cheia de azeite para que sempre houvesse que arder no candieiro, e de um sacco cheio de maçans e de nozes; mas nada d'isso valia o que elle tinha feito. Por fim disse gaguejando:

—Uma sacca de dinheiro.

O anão perguntou-lhe:

—Então já sabes o que isso é? Que queres fazer com o dinheiro?

Thomé respondeu um pouco animado:

—Em lugar da nossa choupana, fazia uma casa grande, muito grande, ainda maior que é na aldeia a casa do monteiro; e uma cavallariça cheia de bellos{9} cavallos em que eu podesse correr, quando tudo estivesse cheio de neve; e comprava á Joanninha um vestido novo, e um barril de azeite para não estarmos ás escuras.

—E que mais? disse o anão sorrindo; has-de fazer uma casa, mas não n'este escuro bosque; andarás por fóra da tua terra, mas para isso não precisas de cavallo; Joanninha poderá ter o vestido novo sem ser dado por ti, e quando quizeres ter azeite bastante, vai com a tua cestinha á pedreira onde acharás com que faças azeite sufficiente para arder no candieiro em dous annos. Entendo que a sacca de dinheiro não te serve de nada; ainda és muito pequeno.

—Ah, disse Thomé desanimado, a nossa vida não seria tão miseravel e tão aborrecida nas grandes noites de inverno, se tivessemos algum bonito livro de estampas.