—Lá isso, disse o anão, é cousa que póde ter bom remedio; vai descançado que depois da noite do Natal irei ter comtigo e cuidarei no modo de nunca mais te parecerem longas as noites de inverno. Alegra-te, os anões sabem pagar o bem que lhes fazem.
O anão desappareceu, Thomé ficou a tremer, e foi-se embora muito mais inquieto do que tinha sahido. Sem que ninguem ouvisse, levantou a aldrava de pau, entrou em casa, foi ao seu quarto, deitou-se, e toda a noite sonhou com o anão. Não quiz dizer nada a Joanninha, porque elle mesmo não sabia bem o que o anão faria, apesar de esperar com anciedade a chegada do Natal.
Chegou a noite de Natal, e não faltava alegria na cabaninha da floresta. O pai tinha trazido da aldeia grande quantidade de maçans e de nozes, a avó tinha dado aos pequenos duas bonitas estampas que ainda{10} achou na sua Biblia, e na manhã do dia de festa, chegou a criada da senhora do monteiro, que era madrinha de Thomé e de Joanninha, e trouxe dous bonitos corações de pão doce, um lindo gibão novo para Joanninha, e uma jaqueta bem forrada e quente para Thomé. O pai não sahiu de casa e cozinhou uma lebre. Havia muito tempo que elles não tinham vivido tão bem; mas Thomé não estava tão contente como nos outros annos, porque não sabia se o melhor ainda havia de vir.
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Veio a noite e todos adormeceram, menos Thomé que se assentou na cama vestido, e pensava no que poderia trazer-lhe o seu novo amigo para passar o tempo enfadonho do sombrio inverno, quando ouviu bater de leve á porta de casa. Com algum susto e temor, mas a toda a pressa saltou da cama, e abriu ao homem pequenino vestido de verde, que não levava nada comsigo senão um vidro redondo, muito brilhante e de muitas côres.
—Leva-me ao teu quarto, disse o anão, entrando e andando mais ligeiro do que Thomé.
Foram ao quarto de dormir em que se via tudo claramente com a luz que o vidro dava. O que lá se via era um leito velho, uma mesa manca com tres pés, e duas cadeiras. O traste maior era uma alta e larga caixa, mettida na parede, ennegrecida pelo tempo, e que muitas vezes tinha sido um bom lugar para o jogo das escondidas. Nas costas da caixa havia um grande buraco redondo por onde Joanninha tinha medo de espreitar porque via tudo escuro.{11}
Esta caixa foi o que deu mais nos olhos ao anão, que entrou n'ella pela tampa meio aberta e esteve a trabalhar e a bater lá dentro algum, tempo.
—Agora, disse elle, depois que sahiu, já não haveis de passar o tempo com aborrecimento; quando as horas parecerem muito compridas, olhem pelo buraco redondo que está na caixa, seja de manhã ou seja de tarde, quando estejam sós. Adeus, rapaz; Deus te dê da sua graça.
—E antes de Thomé saber o que havia de novo, já o anão tinha sahido. Thomé não entendeu bem o que tudo aquillo queria dizer, e não se atreveu a ir logo vêr á caixa. Foi deitar-se ao pé de seu pai, e pensando e scismando se o anão fallaria seriamente ou a gracejar, adormeceu.