Na manhã seguinte o pai sahiu cedo, e Thomé não pôde calar-se, e ao pé da surda avó contou baixinho á irmã toda a sua aventura, de que ella se riu sem lhe dar credito, mas tremendo de susto. Por fim resolveu-a a ir de tarde com elle fazer a primeira visita á caixa, e como esperavam alguma cousa, não souberam n'esse dia o que era aborrecimento.

Á noite, ainda o pai não tinha entrado e a avó cabeceava com somno, quando ambos se metteram na caixa cheios de anciedade. Thomé, que era mais animoso, foi o primeiro que olhou pelo buraco onde brilhava o vidro do anão. Ah! que resplendor lhe veio bater nos olhos! Puxou logo Joanninha para si, porque a abertura era bastante larga para poderem vêr ambos ao mesmo tempo. Eram maravilhas o que elles viam, e mal se podiam conter para não darem altos gritos de espanto. Viam uma grande sala, muito grande, alumiada de um modo magestoso por lustres dourados, com muitos centos de velas de côres. E uma{12} mesa estava carregada com as cousas mais maravilhosas: soldados, de pé e de cavallo, regimentos inteiros com peças e armas, e uma cavallariça cheia de cavallos pequenos de todas as raças, e livros com ricas pinturas, e uma grande quantidade de objectos de brinquedo, que elles nunca tinham visto, e pequenas esporas de prata, e uma espingarda e espada, e um soberbo vestuario de velludo bordado a ouro. Todas estas cousas magnificas estavam dispostas sobre a mesa na melhor ordem, e ao pé havia açafatinhos e pratos com os dôces mais finos.

—Ah, de quem será isto! disseram os dous irmãos suspirando.

A porta abriu-se, e entrou um rapaz esguio e pallido, que teria dez annos, e atraz d'elle muitas senhoras e homens da nobreza vistosamente vestidos. Thomé e Joanninha pensavam que aquellas riquezas deviam pertencer a muitos meninos, e olhavam para todos os que iam entrando na sala; mas não havia outro menino senão o que entrou primeiro, e que passou por todas aquellas cousas tão ricas sem fazer muito caso d'ellas, em quanto que Thomé e Joanninha pregavam no vidro os olhos afogueados e parecia que queriam devorar todas aquellas maravilhas.

—Rapazes, onde estaes vós? gritou fóra a voz da avó.

Voltaram a cabeça assustados, e viram tudo ás escuras, como era nos outros dias, e a velha caixa estava sem luz como se nada tivesse acontecido. Aos dous irmãos ainda parecia tudo um sonho quando se assentaram ao pé do candieiro no quarto velho e defumado. N'essa noite chegaram a sentir quasi alegria por a avó ser surda, porque podiam fallar á vontade nas maravilhas que viram, e a cada um lembrava alguma{13} cousa muito bonita em que o outro não tinha reparado.

—Ai, diziam elles suspirando, que boas cousas tem aquelle menino fidalgo! Se nós tambem tivessemos cousas assim!

E ainda diziam o mesmo quando o somno lhes fechou os olhos, para ainda lhes mostrar em sonho tanta grandeza.

Antes de ser bem dia, foi Joanninha á sala da caixa. O pai não estava em casa, e por isso podiam á vontade ir olhar pelo vidro maravilhoso. Como elles desejavam ver ainda uma vez a bella sala de hontem! Agora era á luz clara do dia, mas, era quasi tão bonito como com os centos de luzes de côr: ainda havia todas as cousas ricas de hontem, mas não estavam em tão boa ordem, o menino que tinham visto estava vestido de sêda deitado sobre o sophá, com alguns dos bonitos livros espalhados de redor d'elle, e parecia estar muito aborrecido.

Quando Thomé e Joanninha se mostravam admirados de que podesse haver alguem que não estivesse contente com tão maravilhosas cousas, abriu-se uma porta da sala, e entrou um senhor de idade. Os meninos ouviram fallar como muito ao longe, mas entendiam bem o que se dizia. O velho perguntou: