—«Sou uma donzela que n'este monte, da banda d'alem d'este ribeiro, pouco ha que vivo, e não posso viver muito. N'outra terra nasci, n'outra, de muita gente, me creei, d'onde vim fugindo para esta, despovoada de tudo, senão só das mágoas que eu trouxe comigo! Este vale, por onde correm estas agoas claras, que vêdes, os altos arvoredos de espessas sombras sobre a verde erva, as flores que por aqui aparecem, e a seu prazer se estendem, ribeira d'esta agoa fria, doces moradas e pousos das sós deleitosas aves, são tam conformes a meu cuidado, que o mais do tempo em que o sol anima a terra passo aqui, e, ainda que me vejaes só, acompanhada estou.
«Muito ha que tenho andado este caminho: nunca vi senão agora a vós. A grande solidão d'este vale, e de toda esta terra por aqui derredor, me faz ousar vir assim, mulher... formosa, bem vêdes já que não! E pois não tenho armas para ofender, para me defender para que me seriam já necessarias? A toda parte posso já ir, segura de tudo, senão só do meu cuidado; que não vou a nenhum cabo que êle não vá após mim. Ainda agora estava eu aqui, só, olhando para aquele penedo (mostrando-lh'o eu então d'ali) a ver como ele estava contrariando aquela ágoa que queria ir seu caminho. Ante os meus olhos, sobre aquele ramo que a cobre, se veio pôr um rouxinol, docemente cantando. De quando em quando parecia, que lhe respondia outro, lá de muito longe.
«Estando êle assim, no melhor do canto, caiu morto sobre aquela ágoa, que o levava tam depressa que o não pude eu ir apanhar.
«Tamanha mágoa me nasceu d'isto, que me recordei de outras minhas, de que tambem grandes desastres foram causa, e levaram-me onde eu tambem não podia ir buscar-me... (A estas palavras se me arrasaram os olhos de ágoa, e fui-me com as mãos a êles.) Isto, senhora, fazia quando vós aparecestes, e o faço as mais das vezes; porque, sempre, ou chóro, ou estou para chorar!»
Eu, que lhe tinha já respondido, detive-me um pouco cuidando como lhe preguntaria outro tanto d'éla: maiormente da causa que foi das suas lagrimas quando não pôde, senão muito tarde, dizer: «filho».
Éla, cuidando que, porventura, eu não queria dizer mais, disse:
—«Bem se vê n'isso, senhora, que sois d'outra parte, e ha pouco que estaes n'esta, pois dos desastres que n'este ribeiro acontecem vos espantaes. Ha uma historia muito falada n'esta terra, por aqui derredor, que muito ha que aconteceu. Lembra-me que era eu menina, e ouvia-a já então contar a meu pae, por historia. Agora, ainda folgo de cuidar n'éla pelos grandes acontecimentos e desventuras que n'éla houve. E ainda que nenhum mal alheio possa confortar o proprio de cada um, parte de ajuda me é saber, para o sofrimento, que antigo é fazerem-se as cousas sem razão, e contra razão. De boa vontade, pois parece que ainda a não ouvistes, vo-la contarei; que, segundo entendo, devem-vos aprazer as cousas tristes, como vós a mim me dizeis.»
—«O sol (lhe respondi eu) vae alto, e eu folgaria muito de a ouvir, pela ouvir a vós, e depois por saber que não busquei embalde esta terra para minhas tristezas, pois tanto ha que se costumam n'ela. Outra cousa, senhora, vos quisera eu agora preguntar; mas fique para depois, que para tudo haverá tempo, ainda que a historia, como dizeis, é de tristezas, e não poderá durar tam pouco como o dia.»
—«Os dias são agora grandes (me tornou éla) e não poderão êles nunca ser tam pequenos que eu, com todo o meu poder, vos não fizesse a vontade n'êles, assim sou, senhora, paga por vós; mas olhae o que quereis antes.»
—«Porque é cousa em que vós folgaes ainda agora de cuidar (lhe respondi eu) não póde ser pouco para desejar ouvir. Fique o que eu d'antes quisera para depois, ou para sempre; que só de o eu querer lhe deve vir isto. Não tomeis de aqui que eu não folgarei de ouvir a historia, porque isto pudera ser se não fôra de tristezas, para que eu vou achando, já agora, o tempo curto, tanto folgo com élas. Por isso, contae-a, senhora; contae-a, pois é de tristezas... Gastaremos o tempo n'aquilo para que parece que no-lo deram,—a vós e a mim.»