«Tudo quanto ha n'este vale é cheio de uma lembrança triste para quem tiver ouvido o que dizem que aconteceu n'êle, e o que foi já em outro tempo; que pareceria então que não era para vir a este de agora.
«Mas tudo é assim. Emfim, fazem-se umas cousas para outras, para que se não faziam.
«Mal cuidariam os dous amigos, quando aceitaram a empreza de guardar as aventuras d'este vale (para só aprazer ás formosas duas donzelas) que era para tanto seu desprazer d'élas... E, tambem, mal cuidaram élas, quando aquele dia (da grande desventura) se vestiram, e enfeitaram ricamente, para verem os dous cavaleiros amigos, que era para os não verem mais!
«Trazem-nos os nossos fados não sei quê ante os olhos, que temos as cousas diante, e não as vemos...
«Tudo anda trocado, que não se entende; e assim nos veem tomar as mágoas quando estamos mais assegurados d'élas, que nos doem, a um mesmo tempo, o bem que perdemos, e o mal que depois cobramos!»
Aqui deu éla um grande suspiro, e esteve como se quisera dizer outra cousa: e tornou dizendo:
—«Mas tempo é de cumprir o que vos prometi, pois bem vejo que muito ha hoje que me leva a minha dôr após si.»