«De reinos estranhos, dizem que veio n'um tempo passado ter a estas partes um nobre e famoso cavaleiro.

«Aportou, cerca d'aqui, em uma nau grande, carregada de muita riqueza, e, sobretudo, de duas formosas irmans, a uma das quaes êle mais que a si queria. Para que éla não sentisse a saudade de sua terra, trouxeram a outra irman, donzela, mais pequena que aquela por quem êle vinha buscar terras estranhas.

«Contam que élas eram filhas de um poderoso senhor, como depois, com o tempo, se suspeitou, pelos muitos cavaleiros andantes que pelo mundo foram espalhados n'aquela epoca. Mas esta historia será longa.

«Aportando Lamentor (que assim se chamava) n'estas partes, como digo; havida inteira informação da terra, e da gente d'éla, porque, como êle viesse da maneira que vinha, não queria fazer seu assento em nenhum lugar muito povoado; e, saindo um dia pela manhan da nau, com todas as suas riquezas, começou a caminhar por este vale acima,—que para tudo tinham já seus criados feito o concerto necessario.

«Em umas ricas andas, que Lamentor na nau trouxera, iam as duas irmans; porque a maior vinha quase no fim do tempo da prenhez.

«A manhan era graciosa. Parecia que assim se acertou, para a terra mais lhes contentar. Ia o ano no mês d'abril, quando florescem as arvores, e as aves, que até então estiveram caladas, começavam a andar fazendo os gorgeios do outro ano, pelo que, por entre o arvoredo d'este vale (bem podeis cuidar quejando seria então, pois agora é tanto) estavam élas tomando recreio, ora n'uma cousa ora em outra.

«Tudo buscava Lamentor para que sua senhora e a donzela sua irman, de alguma maneira, perdessem a saudade de sua terra, e o enjôo do mar.

«Sendo êles cerca de uma ponte, que ahi perto ainda está, e querendo-a passar, lhe disse um escudeiro que no começo d'éla estava:

—«Senhor cavaleiro, se quereis passar, convem que façaes, uma, de duas:—ou que confesseis que o cavaleiro que mantem esta passagem quer bem com mais razão que ninguem, ou o determinará a justa.»

—«Muitas cousas havia mister de saber (lhe respondeu Lamentor) quem houvesse de responder a essa pregunta: e como se póde saber se quer êle bem com mais razão sem ouvir primeiro onde, ou como o quer? Mas, por agora, d'isso eu não curo: porque a mim basta-me saber que, por mais razão com que êle queira bem, eu o quero mais que êle, e que todos os do mundo. Isto que sei, certo de mim, me escusa saber mais d'êle que a condição com que êle guarda esta ponte. A razão que tem para isso, guarde-a para si; que, para êle, poderá ser que pareça a maior do mundo. Deveis, bom escudeiro, dizer-lhe que faria bem em deixar-nos passar, antes que o julgue a justa.»