«O escudeiro, que já olhára para as andas, e nunca cousa tam bem lhe parecera, lhe tornou:

«—É escusada, para êle, essa embaixada, porque está tam ufano, que não póde agora ninguem com êle (e na verdade tem causa); porque fará d'aqui a oito dias três anos que êle mantem este passo, sem achar cavaleiro que o vencesse, sendo o mais esforçado d'êles que por toda esta terra ha. E então se acaba o praso que lhe foi dado por uma donzela, a mais formosa que n'estas partes se sabe, filha do senhor d'aquele castelo que ali vêdes, em que éla lhe prometeu seu amor, sendo esta ponte por êle guardada com a dita condição. Mas se êle fosse sabedor da companhia que vós trazeis, com razão deveria temer agora, mais que nunca; mas eu não lh'o posso ir dizer, que já outras vezes lhe levei assim embaixadas, e êle tornava-me má resposta: e sucedendo depois á sua vontade m'o deitava em rosto, como que a minha tenção ficasse, pelo seu acontecimento, culpada.»

—«Ora, pois, determine-o a justa», disse Lamentor, olhando já para as andas.

«Tirando então, de um tiracolo, o escudeiro uma corneta, tocou-a.

«Dahi a um pouco, deixou-se sair d'um espesso arvoredo, que alem da ponte estava, um cavaleiro bem armado, a cavalo, e vindo direito para a ponte, ali houveram ambos justa, de que meu pae contava muitas cousas de grande esforço e valentia, que vos eu não contarei; porque, ainda que as mulheres folguem muito de ouvir cavalarias, não lhes está bem contarem-nas, nem élas parecem, nas suas bôcas, como nas dos homens que as fazem.

«Mas, comtudo, dissera-vo-las eu, se me lembrassem inteiramente; porém, não me lembra senão que contava meu pae que romperam três lanças, e á quarta caiu o cavaleiro da ponte; e com a queda grande do encontro (que tambem foi grande) ficára sem se poder levantar por um pouco.

«Lamentor se apeou rapidamente. Quando chegou junto d'êle, o achou sem fala, e, descobrindo-o, lhe pareceu como morto. Mas, d'ahi a um pouco, acordou, todo mudado na côr, e levantando os olhos para Lamentor, que sobre êle estava, com um suspiro:

—«Ai! ai! cavaleiro,—lhe disse. Que vos nunca vira, prouvera a Deus, ou que ao menos vos não tornára a ver!»

«Lamentor houve d'êle dó, maiormente de suas lagrimas, que lhe viu; e, tomando-o pelo braço, o ajudou a erguer, dizendo:

—«Do amor, senhor cavaleiro, nos podemos queixar com razão; que, assim como vos êle a vós fez aqui guardar esta passagem, me fez a mim fazer-vos dano. De vo-lo ter feito, me pesa como homem; que, fazer-vo-lo, foi como namorado. N'outra alguma cousa de vosso contentamento vo-lo emendarei, quando mandardes.»