«O cavaleiro da ponte, que assim o viu comedido, bem lhe pareceu razão de lhe agradecer aquela vontade; mas tamanha era a dôr que tinha no coração que não pôde acabar de forçar a sua. Comtudo, porque era de alta criação, lhe disse, como desculpando-se:
—«O amor demasiado não vive em terra de razão, mas eu irei tomar vingança d'êle n'outras, alongadas d'esta, onde não veja cousa com que os meus olhos descansem; ainda que esta vingança bem me pésa,—pois que ha de ser de mim e de meu cuidado?!»
«E assim se virou para outro lado, e deu a andar pelo vale abaixo. E como êle da queda grande que dera ficasse mal-tratado, e (segundo depois pareceu) quebrasse alguma cousa de dentro, não foi muito pelo vale abaixo, porque, acabando o seu escudeiro de tomar o cavalo, começando d'ir após êle, o alcançou perto d'ali: e achando-o já lançado no chão, de bruços, foi para o erguer, e viu que êle era em estado de morte.
«Começou a chorá-lo amargamente, e Lamentor, que o ouviu, deu a correr para lá. E vendo que estava o escudeiro com seu senhor, como morto, nos braços, desceu-se prestesmente, e foi-se para êle; e vendo-o no derradeiro termo de sua vida, e como desmaiado, lhe começou a dizer:
—«Que é isto, senhor cavaleiro?... Esforçae! que é este o passo verdadeiro para que tomastes a ordem de cavalaria.»
«E êle, acordando, pôs os olhos em Lamentor, e estendeu-lhe, vagarosamente, a mão direita, como em signal que parecia de paz. E, com uma voz cansada, disse:
—«Ao esforço, se me êle pudera valer, perdoára eu tudo; pois me falece agora, quando a mim tanto cumpre viver...»
«E com a força que fez para dizer isto (como homem que tinha alguma dôr grande de dentro) foi-se-lhe o folego, e, cerrando os seus olhos, ficou como passado d'este mundo. Mas, d'ahi a um pouco, os tornou a abrir, e fazendo menção com o rosto para aquela parte onde estava o castelo da donzela por quem guardava a passagem, e que todo aquele vale descobria, e levando para lá os olhos,—parece que lembrando-lhe que não tinha já mais de oito dias para acabar o praso que lhe fôra assinado, e como cousa que lhe mais magoava—ainda disse estas derradeiras palavras:
—«Ó castelo, quam perto ainda agora estava de vós!»
«E, com isto, deixaram-se-lhe os seus olhos ir, cansadamente, cerrando para sempre.»