«Lamentor, a quem isto pesou muito, pelo esforço que êle na justa lhe vira, com grande melancolia, disse:
—«Consolae-vos, que amor nunca perdoou desamor; tarde ou cedo, vereis vingança.»
«O escudeiro, chorando, e tornando-se a lançar aos pés do seu senhor:
—«Ai! senhor cavaleiro, disse, para a morte não ha ahi vingança!»
«Lamentor o tornou a erguer, dizendo-lhe: que, para o chorar, haveria tempo; que por então curasse de entender no que havia de fazer.
«O escudeiro lhe disse que iria, d'ali a uma jornada, onde estava uma fortaleza de seu senhor, em que vivia uma sua irman viuva, a quem a êle dera para lhe comer as rendas enquanto que êle seguia as aventuras: e d'ahi viria o concerto para o levarem ao jazigo de seus antecessores; e que, por então, deixasse Lamentor ali um seu escudeiro, que o guardasse.
«O sol ia já declinando, e era tempo de repousar: mórmente quem do mar saíra.
«E porque, não muito longe d'aquele lugar, e da ponte, estava um assento gracioso d'arvoredo, e corria por entre êle agua, ordenou Lamentor de ali jantar, e assim o fez depois, dizendo ao escudeiro que queria ir repousar n'aquele lugar; que lhe daria as andas em que o levassem, e que, se mais lhe cumprisse, de boamente o faria.
«O escudeiro, tendo-lh'o em mercê, disse que assim fosse.
«E, começando-se de ordenar tudo, sucedeu por acaso que a irman do cavaleiro da ponte, que sabia que não havia mais que oito dias para se acabar o praso em que seu irmão (que éla muito queria) todo o seu contentamento tinha posto, determinára vir ali com grandes pompas e atavios, como aquela que devia, por amor e obrigação, acompanhá-lo até ao fim,—porque tinha éla por certo que o acabaria êle com grande honra, pois tanto tempo mantivera sua aventura que não havia já cavaleiro em toda essa parte que por ali não tivesse passado.