«E acertou então de vir: e, vendo aquele ajuntamento e as andas, não soube que dizer; mas logo lhe deu o coração uma volta, e, chegando-se com presteza, viu o escudeiro, que éla bem conhecia, andar chorando. Preguntou-lhe que cousa era aquela. Olhou, e viu o irmão jazer já sobre uns panos ricos, que Lamentor lhe mandara pôr, e, apeando-se apressadamente, foi correndo para êle. Lançando os seus toucados por terra, começou a ir, arrancando cruelmente os seus cabelos (que longos eram), para onde o corpo de seu irmão morto jazia, dizendo:—«Para a dôr grande, não se fizeram leis!»
«Isto dizia éla, porque era costume muito guardado n'aquela terra, que ficara d'outro tempo, sob grandes penas proíbido, não se pôr mulher nenhuma em cabelo, senão por seu marido.
«Chegando a êle, o abraçou muitas vezes, e o beijou, dizendo:
—«Irmão meu, que morte foi esta, que assim vos levou tam depressa, que vos não pude falar? Quam enganada me trouxe, do vosso castelo até aqui, a desventura?! Que desconcertos da fortuna são estes? Para verdes outrem, tomaveis vós esta empreza; e eu para vêr a vós parti de casa: e tudo era para não vêrmos o que desejavamos!... Triste de mim, que, quando vós, com outro rosto, fostes correndo a abraçar-me, dizendo: «D'aqui a três anos, senhora irman, haverei a causa do mundo mais desejada, e, com vossa licença, que mais quero» logo me deu n'alma. E disse-vos: «Que largo praso, esse, para quem o recebe; parece até que quem o põe o não põe para outra cousa!» Mas vós, que para isto quisestes este bem, como que não folgaveis de me ouvir aquilo, me tornastes: «O grande amor assegura esta demanda.» Inda mal, muitas vezes, porque foi tam grande! Mas não me comerá a mim a terra com esta dôr, sem fazer, com todo o meu poder, que custe o largo praso alguma cousa áquela que tanto custou a vós e a mim!»
«As duas irmans, que já tinham descido para darem as andas, se foram para éla, e, tomando-a entre si, começaram a agasalhá-la, á maneira de a quererem consolar,—que a lingoagem d'aquela terra não a sabiam.
«Éla, com alta voz, chorando, disse: «Deixai-me, senhoras, chorar meu irmão, pois não tem outrem que o chore.»
«Chegou-se Lamentor, que sabia a língoa, e andára todas as partidas do mundo, e disse:
—«Os cavaleiros, senhora, que em feitos d'armas acabam, como vosso irmão, não devem ser chorados como os outros homens; porque êles acham o que buscam. Vós, senhora, posto que muita causa tenhaes para ser triste, pela perda que perdestes n'ele, que era o melhor cavaleiro d'esta terra toda, tendes tambem muita razão para louvar a Deus por ele ser tal. Deixae o pranto, e vêde o que mandaes que se faça; que parece, senhora, escandalo curardes mais de vossa dor que de vosso irmão, emquanto o tendes diante de vós.»
«N'isto, chamou o escudeiro, para que lhe dissesse o que estava d'antes ordenado. E éla o houve por bem, e fez-se assim.
«E puseram o cavaleiro da ponte sobre as andas, em ricos panos; e a irman, chorando, pediu que a metessem com ele. Lamentor a tomou por um braço, e a donzela (porque a irman não podia) pelo outro, e puseram-na dentro. E querendo Lamentor soltar os paramentos das andas, como causa de tanto dó, se chegou mais para éla, e disse estas palavras: