«E foi-a a erguer; e, querendo-lhe falar, lhe faleceu a fala.

«Ali, houveram ambos mui triste pranto, e entre si se diziam, um ao outro, palavras de muita mágoa, começadas pela dôr, rotas pelo pranto.

«E era já manhan clara.

«E acertou assim que, áquela hora, chegava um cavaleiro á ponte, e vinha de longes terras buscar aquela aventura, por mandado d'uma senhora que lhe queria bem a êle: mas êle a éla devia-lhe mais do que lhe queria.

«Não achando ninguem na ponte, e ouvindo perto d'ali tam grande pranto, pareceu-lhe algum misterio, ou alguma cousa de dôr.

«Deu a andar para onde era; e, vendo uma rica tenda, e ouvindo muita gente, dentro e fóra, chorando, preguntou a um servidor, que topou, que cousa era aquela. E êle lh'o contou.

«E, apeando-se êle então, (mandando primeiro adiante o escudeiro de Lamentor) muito mensurado e humildemente, entrou após êle.

«E entrando, e vendo a senhora Aonia, que em grande extremo era formosa, soltos os seus longos cabelos que toda a cobriam, e parte d'êles molhados em lagrimas, que o seu rosto por alguma parte descobriam, foi logo trespassado do amor d'éla, sem haver quem, por parte d'outrem, fizesse defeza alguma; e como o amor viesse juntamente com a piedade, parecia que vinha éla só; mas, quando se descobriu, eram já conhecidas tantas razões por parte da senhora Aonia, que não tam sómente lhe esqueceu a outra, mas não lhe lembrou mais senão para lhe pesar do tempo que gastára em seu serviço.

«D'esta maneira, foi êle preso do amor da senhora Aonia; e, depois, veio a morrer por éla.

«Este foi um dos dous amigos de que é a nossa historia. E, por isto, costumava meu pae dizer que tornára o amor d'este cavaleiro a morrer na paixão onde se levantára. Mas, para isto, seu tempo lhe virá.