«Mas a ama, que via não haver ali outrem sobre quem recaisse o cuidado das honras derradeiras, senão a éla, arredando Lamentor e a senhora Aonia, tomou uma rica toalha nas mãos, e, lançando-a por cima do rosto de Belisa:
—«Agora para sempre (disse) vos cumpre olhar para o ceu, onde éla, bem-aventuradamente, está; que isto é terra! Quem a amar, pois já éla a deixou, parece que errará ao bem que lhe quiser.»
«Palavras eram estas de muita consolação, se soubera a dôr presente consolar-se.
«Mas assim a enterraram.
«Deixemos aqui as cousas de Lamentor (que foram muitas e extremadas as que êle fez, pelo muito que a Belisa queria), porque como este conto seja dos dous amigos, agravo se lhe fará, ao muito que d'êles ha para dizer, gastar-se n'outrem alguma parte do tempo.»
Capitulo XII
Do que sucedeu ao cavaleiro, que saiu da tenda, vencido do parecer e formosura da senhora Aonia
«Torno-vos ao cavaleiro que saiu da tenda, tam triste que não pôde alongar-se muito d'ali; e, apeando-se, sentou-se ao pé de um freixo que cerca d'aquelle ribeiro e da ponte estava. E, para pensar mais á sua vontade, mandou o seu escudeiro, arredado d'ali, que desse de comer ao seu cavalo na ribeira d'aquele rio, porque logo se temeu de êle o ver assim, e cair em alguma suspeita que fosse contar a Cruelcia (que era aquela por quem viera ali, como ouvistes), porque todos os seus lhe eram muito afeiçoados; e como éla quisesse a êle muito grande bem, êles não se podiam ter que lh'o não mostrassem todo em as obras; d'onde nascia irem-lhe êles a dizer e contar tudo o que êle passava.
«Assim o que êle fazia por bem lhe saía ás vezes em mal; que para tamanho bem lhe éla queria que não podia deixar de ouvir, pelo tempo, cousas que a magoassem; nem tambem êle não as podia deixar de fazer, pelo pouco que lhe queria. Como, de feito, assim, por derradeiro, lhe foi isto causa, a éla, de triste fim.