«Mas, sentado o cavaleiro ao pé do freixo, esteve por longo espaço revolvendo muitas cousas na fantasia.
«E, quando se lembrava do que a Cruelcia devia, parecia-lhe sem-razão deixá-la; por outra parte, lembrando-se de quam bem lhe parecera Aonia, parecia-lhe desamor não lhe querer bem.
«Tinham-no assim, entre ambas, formosura e obrigação, a ver quem o levaria; mas, por derradeiro, pôde mais a de mais perto.
«Costumava dizer meu pae que fôra vencida a obrigação, como cousa que lhe não vinha de direito o pago no amor, e vencera a formosura, como quem só de amor se pagava.»
Capitulo XIII
Em que se diz quem fosse Cruelcia e do que o cavaleiro passou com seu escudeiro
«Era Cruelcia uma de duas filhas a quem sua mãe mais que a si queria, e de boa formosura; mas obrigou tanto este cavaleiro, com cousas que fez por êle, que o endividou todo nas obras. Não lhe deixou nada, tam só para que lhe devesse a formosura. Parece que lhe quis tamanho bem, que não sofreu a tardança de o ir obrigando pouco a pouco: deu-se-lhe logo toda. Obrigou-o assim, mas não no namorou.
«Coitadas das mulheres, que, porque vêem que as namoram os homens com obras, cuidam que assim se devem élas tambem namorar; e é muito pelo contrario,—que aos homens namoram-nos desdens e presunções. Após uma brandura de olhos, aspereza muita de obras.
«Isto de seu natural lhes deve vir; porque são tam rijos que parece não terem em muito senão o que trabalham muito.