Capitulo XV

De como Bimnarder soube de um servidor de Lamentor que este ordenava fazer ali uns paços e do mais que lhe aconteceu com a sombra que lhe apareceu

«Não passou muito que, por aquele lugar, não viesse um dos servidores de Lamentor, que atravessava para o castelo.

«Quando Bimnarder soube d'êle que Lamentor tinha ordenado fazer ali uns paços grandes, e morar n'êles toda a sua vida, algum repouso mais deu isto a Bimnarder; que, d'antes, a pouca certeza que tinha da estada de Aonia n'aquela terra lhe dava grande fadiga ao pensamento.

«Mas, afrouxado da parte d'este cuidado, entrou n'outro:—do que faria de si, e para onde se iria; no qual esteve até a noite, sem poder assentar nada consigo. Porque se o ir-se d'ali para outra parte, lhe era já grave; ficar, parecia-lhe impossivel cousa poder-se esconder do seu escudeiro.

«Combatido assim de uma cousa e de outra (ainda, porém, sem determinação nenhuma) ergueu-se,—como forçado da noite, mais que da vontade.

«Buscando o seu cavalo, onde o deixára o escudeiro, não o achou. Tornando-se então para o freixo onde antes estivera, para d'ali olhar se fôra beber a este rio, mas não o vendo nem sentindo em nenhuma parte, encostou-se então assim ao freixo, pensando, á primeira no cavalo. Mas não tardou que logo não tornasse ao seu verdadeiro cuidado, imaginando, parece, a senhora Aonia na fantasia, afigurando-se-lhe vê-la da maneira que a vira. E, de piedade amorosa, lhe estavam vindo as lagrimas aos olhos.

«Estando êle assim, todo ocupado d'aquela doce tristeza, sentiu como que alguem junto de si.

«Olhando, com o luar que então fazia, viu uma sombra de homem de estatura desproporcionada (de nosso costume) estar perto d'êle.

«A subita novidade o moveu á alteração, mas, como esforçado que era, lançando mão á sua espada cobrou ousadia de lhe preguntar quem era; e vendo que, comtudo, se calava, se pôs a mover para êle, já com a espada arrancada, dizendo: