—«Ou me dirás quem és, ou o saberei eu.»
—«Está quedo, Bimnarder (chamando-o assim por seu nome)—lhe disse a sombra—que inda agora foste vencido de uma donzela chorando!»
«Deteve Bimnarder o passo, espantado de aquilo que ainda então cuidava êle que o não sabia ninguem; mas tornando logo a querer-lhe preguntar de onde o sabia, a meia palavra, olhou... e viu aquela sombra que, virando-se para umas moitas grandes, que 'hi cerca estavam, se ia metendo por entre élas, pouco a pouco. E assim se encobriu e desapareceu.»
Capitulo XVI
De como, estando Bimnarder muito pensativo no que faria, viu de subito vir o seu cavalo fugindo d'uns lobos que o queriam matar
«Ficando Bimnarder com o pensamento cheio do que aquilo seria, começou de ouvir um estrondo grande que vinha pelo mato para onde ele estava. E, inda bem o não ouvia, quando, correndo por ante si, viu passar o seu cavalo, e uns lobos após êle, e após êles, de longe, vinham correndo uns cães com grande grasnada.
«E, ao saltar d'este ribeiro, caiu n'êle o cavalo. E, chegando os lobos, começaram a mordê-lo por todas as partes, de maneira que, comquanto prestemente Bimnarder acudiu, já êle era morto.
«E não tardou nada que uns pastores, que perto d'ali tinham a malhada do seu gado, ao filar dos cães, vieram ali ter, afigurando-se-lhe ser morta alguma rês; e, achando Bimnarder assim agastado, começaram-no a querer consolar com palavras e modos rusticos, oferecendo-lhe pousada por aquela noite.
«Aceitou êle, ainda que não desejava então companhia; mas pelas horas o fez, e tambem porque logo cuidou que, quando os pastores fossem no seu rebanho, não lhe haviam mais de tolher o tempo ao pensar,—que para êles não se fizera a noite senão para dormir.