«P'ra todos houve 'hi remedio
P'ra mim só não no houve ahi:
Inda mal que o soube assi.
«Fogem as vacas p'ra a ágoa,
Quando a mosca as vae seguir;
Eu só, triste em minha mágoa,
Não tenho a d'onde fugir:
D'aqui não me posso eu ir,
Estar não me cumpre aqui,
Que o que eu quero não o ha 'hi.
«Entretanto a calma dura,
Tem esta fadiga o gado,
A manhan pasce em verdura,
A tarde em o seco prado;
Dorme a noite sem cuidado,
Pois tudo achou para si.
Descanso, eu só o perdi.
«A mim, nem quando o Sol sae,
Nem depois que se vae pôr,
Nem quando a calma mór cae,
Não me deixa a minha dôr.
Dôr, e outra cousa maior,
Convosco hoje amanheci,
Convosco honte' anouteci.
«Crendo que assim findaria,
Dei-me todo ao que padeço:
Um dia leva outro dia,
Por um mal, outro conheço.
Se o fim responde ao começo,
Ai! quam mal que me provi,
Que no começo o fim vi!
«Se nasci p'ra meu mal vêr,
E não p'ra vê-lo acabado,
Melhor fôra não nascer,
Que vêr-me desesperado.
E, pois que n'este cuidado
Me traz tam cego após si,
Inda mal que o soube assi!
Fim
«Entre lagrimas e prantos,
Nasceu o meu pensamento.
Cresceu, em tam pouco, tanto,
Que é mais alto que o tormento!
Passa o que passo ao que sento.
Mal faz quem me esquece assim
Que após mim não ha outro mim.»
Capitulo XIX
De como conta a ama á senhora Aonia o que vira fazer ao pastor acabada a cantiga
«Em dizendo este derradeiro verso, parece que não podendo êle já suster as suas lagrimas, calou-se, como estorvado d'élas; e, entendendo-o a ama, pelo soltar da flauta, e tomar da aba do gabão para limpar-se, tamanha paixão a comoveu que não pôde ter as suas, lá onde estava, e sempre lhe falara, se não fôra que vinham chamá-la já de casa.
«Foi forçada a levantar-se éla, e foi-se, ocupada toda a fantasia d'aquele pastor, pois algum grande misterio lhe pareceu.
«E como o que está ordenado de ser, logo traga asos consigo, entrando a ama em casa, e topando Aonia só, á boa-fé, sem mau engano, se pôs a contar-lhe tudo, e a jurar-lhe e tresjurar-lhe que não podia ser pastor.
«E, porque já Aonia entendia a lingoagem d'esta terra muito bem, lhe disse a ama a cantiga. E quando lhe veio a contar como o pastor, com aquelas derradeiras palavras, deixara cair a flauta no chão, e com a aba do gabão (que de burel era) se limpara das lagrimas que com élas lhe vieram; e, acabando de limpar-se, olhara para a aba, que com ambas as mãos tinha, e como (parece) lembrando-lhe do que éla era, ou não sabia porque, encostara o rosto a éla, assim entre as mãos, como estava; e, após um grande suspiro, se deixara estar assim, e assim ficara quando éla viera, que, pela chamarem n'este meio tempo se tornara tam triste como havia muito tempo que o não fôra por causa alheia... E encheram-se-lhe á velha ama os olhos d'ágoa, em dizendo «cousa alheia». E assim se virou para outro lado, e foi-se fazer cousas de casa.
«A senhora Aonia, (que ainda então era donzela d'entre treze a quatorze anos) sem saber que cousa era bem-querer, de umas lagrimas piedosas regou as suas formosas faces, e, sobre élas, os sentidos primeiros lhe inclinou, tanto podem, algumas horas, as cousas ouvidas!
«E, se não fôra que era éla moça, facilmente o entendêra logo; mas, não o entendendo, mil vezes n'aquele dia tornou a pedir á ama lhe dissesse, ora a cantiga, e ora como estava o pastor.