«E, por acerto, perguntando-lhe uma vez de que feições era, lhe disse a ama:

—«Eu já outras vezes o vi, de bom corpo, e de boa disposição; a barba um pouco espessa e um pouco crescida que a êle traz, parece que é aquela a primeira ainda. Os olhos brancos, de um branco um pouco nublado; na presença, logo se enxerga que alguma alta tristeza lhe sujeita o coração.»

«Lembrou a Aonia só tornar-lhe a perguntar quando foram as outras vezes que o vira.

«Disse-lhe então a ama que o pastor se vinha pôr derredor d'aquelas casas sempre, e ás vezes se punha a falar com os oficiaes, e outras andava defronte (na ribeira d'aquele rio) pastorando o seu gado. E este era o pastor a que todos chamavam «o da flauta», que conhecido era de todos.

«Não o conhecia Aonia, porque nunca saira fóra. Mas como então logo pôs na sua vontade de olhar para êle, e de buscar maneira para isso, (tamanho dó lhe fez ouvir d'êle o seu canto) enganada assim d'aquela falsa sombra de piedade, toda aquela noite seguinte não pôde dormir. Mas não que já fosse declarada consigo, nem debaixo d'aquele desejo determinasse nada; porém, ardia em fogos de dentro de si.

«E porque de todo o ponto se acabasse isto de confirmar de todo, ainda bem não era manhan, saindo a ama da menina a uma varanda á maneira d'eirado (que sobre uma parte das casas estava, e fôra feita, logo no começo, para despejo) viu o pastor estar só, sobre a borda d'este rio, não muito longe do lugar onde o éla vira o dia antecedente,—que ali estava o freixo onde se ele pôs a primeira vez que saira da tenda, onde tambem viu a sombra, como vos disse, e ali foi onde depois veio a morrer.»

Capitulo XX

Da peleja que o touro do pastor teve com outro alheio e de como o matou; a qual Aonia estava vendo do eirado

«E como assim o viu, foi logo dizê-lo a Aonia, correndo, tamanha pressa dava já a fortuna ao desastre, ou era vinda a hora que se não podia alongar. E, como lh'o houve dito, ocupou-se em negocios de casa.