«E com esta fantasia, em que a ama se afirmou, adormeceu tambem.»
Capitulo XXIV
Em que se conta o mais que a ama passou com a senhora Aonia ácerca de Bimnarder
«Bimnarder, que todo aquele tempo passou como Deus sabe, vendo que assim se calavam, não soube que determinar; porque tão magoado ficou das palavras da ama, pelo dano que temeu de lhe fazerem, que se lhe turvou o juizo, e não soube dar saida nenhuma áquele calar.
«E assim enleado, ácerca do que seria, esteve até que a manhan o levou d'ali, bem contra sua vontade; porém, não se pôde ir para longe d'ali.
«Da mágoa d'êle, não vos quero contar. Era homem; poderia com éla. Mas da coitada da Aonia (a quem as boas palavras da ama não aproveitaram mais que para se guardar d'éla) vos contarei:
«Ergueram-se pela manhan, e, posto que a ama tentasse Aonia, dizendo-lhe se ouvira a noite passada o que lhe éla contara, éla dissimulou altamente. Pela sua idade, e pelo amor de creação que lhe a ama tinha, creu logo de todo, e pelo socego de Aonia, feito por acinte, o acabou de confirmar, e houve o passado por nada. Pareceu-lhe que seria o desassocego de moças: que ás vezes, por mocidade, fazem cousas que não fariam em outra idade, ainda que n'isso fosse todo o seu desejo.
«Assentando a ama n'isto, meteu-se na ocupação de casa (que era grande) porque sobre éla carregava tudo; pelo que a Aonia ficou lugar e tempo que bastava para pensar mais á sua vontade, e para fazer com que Bimnarder fosse certo d'éla.
«Pondo cofres sobre cofres, fechando a porta da camara primeiro, dissimulando fazer alguma cousa, se subiu á fresta. E, ainda bem não era n'éla, viu Bimnarder, que não estava longe d'ali, nem tam perto que a conhecesse logo: pelo que se deixou estar um pouco, para se afirmar melhor.