«Éla, que não suportou já aquela tardança, lançando uma manga da camisa fóra da fresta, fez que o chamava.

«Chegou êle com presteza, e, vendo-a, ficou assim sem lhe poder dizer nada. Mas Aonia, que estava já determinada consigo, ousou falar-lhe primeiro, mas não o que éla quisera, porque não pôde a tanto decidir-se.

«E, mudando o proposito n'aquilo que se acertou, lhe disse:

—«Aqui andaes, pastor, cada dia, sempre!»

—«Essa fresta, lhe respondeu êle, não está ahi, senhora, de noite tambem?»

«Aonia, que o entendeu, muito de manso lhe tornou:

—«Está», ajudando a palavra com o abaixar dos olhos, que de todo então, ao dizer d'aquilo, pôs n'êle.

«E não na entendera Bimnarder, se não fôra por isso, mas não lhe tornou êle resposta. Éla, n'isto, desceu-se, porque se lhe afigurou que buliam na porta da camara; e, tornando os cofres a seu lugar, se foi abri-la, e, não achando ninguem, quisera tornar para a fresta, senão quando, n'isto, eis vem a ama com outras mulheres de casa.

«De maneira que todo aquele dia, não teve outro tempo mas logo, n'aquelas palavras que lhe o pastor dissera, entendeu que eram para que tambem olhasse de noite para êle. E, com esta esperança que se deu a si mesma, passou aquele dia, que tambem Bimnarder passou com sua esperança, que tomou d'aquela palavra derradeira que lhe éla falou, com os olhos mais que com outra cousa!

«Mas não cuidara êle, me parece a mim (dizia meu pae), que havia de ser para tanto como lhe saiu, pelo pouco que entre ambos era passado.