«E, ao cair, lavou toda em sangue aquela parte do seu rosto, que d'aquela banda da parede parece que levou; de que muitos dias esteve mal depois.

«Mas nenhumas cousas grandes se acabaram senão por meio de grandes desastres como aqui vereis; porque esta queda foi causa de Bimnarder ver o que, pela ventura, nunca vira.»

Capitulo XXVII

De como a ama, sentindo de noite o estrondo da queda, o que sobre isto fez quando foi manhan

«Mais diz o conto que a ama (que a menina não a deixára mais dormir) sentiu todo aquele estrondo. E Aonia, que não dormia, tambem o ouviu, e cuidou logo o que temeu; porém, dissimulou grandemente, porque já se guardava da ama.

«Mas éla, que já tambem estava descuidada de Aonia, foi suspeitar outra cousa: que seria alguem d'aquelas obras, porque muita gente andava ahi, e, porventura, viria espreitar por aquele lugar o que élas de noite faziam, que bem sabia éla que os homens tudo ousavam fazer de noite.

«E, ainda bem não foi manhan, foi derredor da casa, e achou sinaes por onde confirmou sua suspeita; e logo mandou tapar a fresta a pedra e cal, contando tudo, da maneira que o éla cuidou, primeiro a Aonia, que lh'o ouviu com tamanha mágoa, que mór trabalho cuido eu que levaria em lh'a encobrir que em a sofrer consigo: porque o sofrer faz-se por vontade, e a outra cousa contra éla.

«Mas, este remedio tolhido a Aonia, deu-lhe causa para buscar outro maior; e chamando a uma mulher de casa, que Enis se chamava, avisada, e de quem se podiam bem fiar grandes cousas, e assegurada no segredo, pelas melhores maneiras que pôde, contando-lhe seu coração, lhe disse que fosse ver se andava pela ribeira d'aquele rio o pastor da flauta; e, se o não visse, que preguntasse a algum outro pastor por êle.

«Fel-o éla assim; e soube que jazia doente em um monte perto d'ali, onde morava a mulher e filhos do maioral do rebanho em que êle andava. E, tomando éla em sua companhia um homem de casa, determinou ir lá, porque tamanha vontade conhecia em Aonia, que não pôde fazer menos.