«Chegou depressa ao monte; e preguntando pelo pastor da flauta, lh'o foram mostrar lá, em uma casa de palhoça, por detraz das outras, onde êle estava. E ficando êles sós, que assim buscou éla maneira, lhe descobriu inteiramente ao que ia.

«Bimnarder, que logo a creu, porque era mulher, sobre a cabeceira onde pobremente estava encostado, se lhe deixaram cair umas ralas lagrimas, causadas d'entre contentamento e muita dôr,—que de ambas as duas costumam élas ás vezes vir, as quaes fizeram certa a Enis do grande bem que êle a Aonia queria; e não lhe esqueceu contar-lh'o éla depois.

«Ali estiveram ambos um grande espaço de tempo, e Bimnarder contando-lhe tudo do começo; e detiveram-se tanto que foram suspeitando mal da tardança, se fôra em outro lugar; mas a vida do monte não cria suspeitas, como não cria de quem se suspeite mal.

«Mas, comtudo, detiveram-se ainda ambos n'esta pratica menos do que ambos quiseram, por causa do homem que Enis trouxera.

«Tornada éla onde Aonia estava, lhe contou tudo, cousa por cousa, que não ficou nada por contar.»

Capitulo XXVIII

De como, estando da queda Bimnarder muito doente, Aonia buscou maneira por onde o fosse visitar

«Veio assim, por acerto, que perto d'ali havia uma ermida de uma santa de grande romagem, e era então, no outro dia, a vespera do seu dia; e a ama e as mulheres de casa ordenaram ir lá.

«Havida licença de Lamentor para Aonia, e postos a caminho, (que a pé podiam bem andar) ao passar pelo monte, se chegou Enis a Aonia, e disse-lhe que ali era, porque iam já concertadas.