«—Pesa-me, pois a minha ventura, ou desventura, não quis que vos eu deixasse de magoar com o que eu não quisera.»
«E estas palavras lhe disse já fóra da porta.
«E com élas, e com o que sentiu ao dizer d'élas, duas a duas, lhe começaram as lagrimas a correr dos seus formosos olhos, e pelas suas faces formosas abaixo lhe iam fazendo carreiras por onde iam, que Bimnarder a tanto pranto convidou quanto era a razão d'êle, pois perdia a vista.
«Foi tanto o choro, que não lhe bastavam os seus olhos ás suas lagrimas, pelo que lhe não pôde então dizer nada. Mas Enis, apressando Aonia com a fala, e com as mãos, quasi puxando-a, e levando-a já, virou-se para êle Aonia, dizendo:
—«Levam-me!»
«E, deixando-se ficar toda com os olhos, se foi assim, enlevada, até que, com a parede das outras casas, passou alem.
«Apartada que éla foi de Bimnarder, êle não se pôde ter que pela outra banda da sua casa se não saisse para aquela parte d'onde se podia ver o caminho que élas levavam; e ali esteve olhando, entretanto a terra lhes deu lugar, e depois, um grande pedaço, em quanto poderiam bem chegar a casa; pois, parece, folgam tambem os olhos com a presunção, e descansam em olhar para aquela parte onde está, ou vae, aquilo que podiam ver, se não fôra a fraqueza d'êles, ou o impedimento d'alguma cousa.
«Mas como lhe pareceu que estaria já em casa, lembrou-se logo do lugar onde éla estivera na sua cama assentada, e com grande pressa se tornou para lá.
«E, entrando, foi-se ali pôr, onde éla estivera d'antes.
«Consigo estava fantasiando a Aonia; ora lembrando-lhe como aquilo fizera, ora como aquel'outro.