«Depois, tomando aquela parte da manga, que lhe deixára, se punha a chorar com éla, de mistura com palavras tristes, como que as houvesse éla de entender.
«N'isto passou aquela doença, em que grandemente foi visitado por Enis; e sarou depressa.
«E, d'aqui até que lhe aconteceu a desventura que vos contarei, se passaram tempos e outras infindas cousas; porque os paços de Lamentor acabaram-se, e pelo apartamento do lugar onde êles estavam, Aonia e a ama, com outras mulheres de casa, iam passar tempo á ribeira d'este rio, onde Bimnarder sempre andava.
«Mas nenhuma cousa ha n'este mundo em que se deva ninguem muito fiar; que aquela grande segurança em que Bimnarder estava, em lugar tam ermo, lhe não pôde durar, como agora vereis.»
Capitulo XXIX
De como Lamentor casou Aonia com o filho de um cavaleiro seu comarcão, e do que Enis aconselhou a Aonia que fizesse
«E foi assim que a donzela, por quem morreu o cavaleiro da ponte, (como vos hei contado) veio tristemente a acabar por aso da irman viuva que o levou nas andas.
«E sucedeu no castelo um filho de um cavaleiro muito valido e rico n'esta terra, que, por meio de visinhos, desejou a Aonia para mulher, o que foi depressa acabado, pela igualdade d'ambos n'aquilo em que a quiseram aqueles em que estava o «praz-me» do casamento.
«Mas, pelo luto de Lamentor, e pelo apartamento de sua vida, não o soube Aonia senão no dia antecedente áquele em que a haviam de levar para o castelo,—que em sua casa não queria Lamentor ver prazeres, e bem lhe pareceu que se não desconcertaria Aonia do esposo; porque era bem posto cavaleiro, e, dos bens do mundo, abastado; e por isso tambem escusava dizer-lh'o então. Mas não foi assim; que Aonia toda aquela noite passou em um grito.