«Se não fôra Enis, que do seu segredo era sabedora, morrêra ou se fôra por esse mundo; mas éla a consolou, e, com muitas esperanças que lhe deu, não tam sómente a susteve, que não fizesse de si nada, mas antes ainda lhe fez ser contente d'aquela vida e desejá-la; porque lhe dizia que, como os casamentos ocupavam aos homens, poderia éla ter a liberdade que quisesse; e, com resguardo, faria o que de sua vontade fosse, o que não poderia fazer na casa onde estava.
«Este conselho foi tomado sem Bimnarder saber, porque a brevidade do tempo não deu lugar para isso; mas concertaram-se ambas que ficasse Enis para lh'o dizer ao outro dia, e, depois, mandaria por éla, porque logo determinou pedi-la a Lamentor.
«E veio aquele outro dia; e, como Bimnarder não guardasse outro gado, ainda bem não era manhan, já êle andava pela ribeira d'este rio; e viu vir muita gente a cavalo, e passar a ponte dirigindo-se para os paços de Lamentor.
«Mas não teve então a quem preguntar o que seria aquilo.
«Comtudo, não se tirou d'ali, porque logo se lhe revolveu o pensamento, e inclinou a vontade a querê-lo saber; que, pela maior parte, o que ha de ser, dá primeiro sempre na alma; e se andassemos de sobre-aviso facilmente entenderiamos tudo, ou parte, do que nos está para vir.»
Capitulo XXX
De como Fileno, o marido de Aonia, desejoso de a ter em seu poder, a levou de casa de Lamentor muito acompanhada
«Descidos os de cavalo, estiveram por grande espaço com Lamentor; e, depois, começaram saindo uns atraz dos outros, fazendo maneiras de prazer.
«E, n'isto, viu Bimnarder donas a cavalo, e viu o fio da gente encaminhar-se para a ponte; pelo que teve ensejo de preguntar a um pagem que cousa era aquela.