—Qual gratidão!... pensa vm.ce que elle está fazendo muito caso della?... tanto como do primeiro sapato que calçou. Aquillo foi um capricho de cabeça estonteada, uma phantasia de fidalgote endinheirado, e a prova aqui está; leia esta carta... O patife tem a sem cerimonia de escrever-me, como se entre nós nada houvesse, assim com ares de amigo velho, participando-me que se acha casado!... que tal lhe parece esta?... que tenho eu com seo casamento!... Mas isto ainda não é tudo; aproveitando a occasião, pede-me com todo o desfaçamento que em todo e qualquer tempo, que eu me resolva a dispor de Isaura, nunca o faça sem participar-lhe, porque muito deseja têl-a para mucama de sua senhora! É até onde pode chegar o cynismo e a impudencia!...
—Com effeito, senhor!... isto da parte do senhor Alvaro é custoso de acreditar!
—Pois capacite-se com seos proprios olhos; leia; não conhece esta letra?...
E dizendo isto Leoncio apresentava a Miguel uma carta, cuja letra imitava perfeitamente a de Alvaro.
—A letra é delle; não resta duvida,—disse Miguel pasmado do que acabava de ler.—Ha neste mundo infamias, que custa-se a comprehender.
—E tambem lições crueis, que é preciso não desprezar, não é assim, senhor Miguel?... Pois bem; guarde essa carta para mostrar á sua filha; é bom que ella saiba de tudo para não contar mais com esse homem, e varrer do espirito as fumaças que por ventura ainda lhe toldão o juizo. Faça tambem vm.ce o que estiver em seo possivel a fim de predispôr sua filha para esse casamento, que é de muita vantagem, e eu não só lhe perdoarei tudo quanto me fica devendo, como lhe restituo o que já me deo, para vm.ce abrir um negocio aqui em Campos e viver tranquillamente o resto de seos dias, em companhia de sua filha e de seo genro.
—Mas quem é esse genro? Vª. Sª. me não disse ainda.
—É verdade;... esquecia-me. É o Belchior, o meo jardineiro; não conhece?...
—Muito!... oh! senhor!... com que miseravel figura quer casar minha filha!... pobre Isaura!... duvido muito que ella queira.
—Que importa a figura, se tem uma boa alma, e é honesto e trabalhador?...