—Juro,—balbuciou Isaura.

—Ah! Isaura, Isaura!... tem cuidado. Se até aqui tenho soffrido com paciencia as tuas repulsas e desdens, não estou disposto a supportar, que em minha casa, e quasi em minha presença, estejas a escutar galanteios, de quem quer que seja, e muito menos revelar o que aqui se passa. Se não queres o meo amor, evita ao menos de incorrer no meo odio.

—Perdão, senhor, que culpa tenho eu de andarem a perseguir-me?

—Tens alguma razão; estou vendo, que me verei forçado a desterrar-te desta casa, e a esconder-te em algum canto, onde não sejas tão vista e cobiçada...

—Para que, senhor....

—Basta; não te posso ouvir agora, Isaura. Não convem que nos encontrem aqui conversando a sós. Em outra occasião te escutarei.—É preciso estorvar, que aquelle estonteado vá intrigar-me com Malvina,—murmurava Leoncio retirando-se.—Ah! cão! maldita a hora, em que te trouxe a minha casa!

—Permitta Deos que tal occasião nunca chegue—exclamou tristemente dentro da alma a rapariga, vendo seo senhor retirar-se. Ella via com angustia e mortal desassocego as continuas e cada vez mais encarniçadas sollicitações de Leoncio, e não atinava com um meio de oppor-lhes um paradeiro. Resolvida a resistir até á morte, lembrava-se da sorte de sua infeliz mãe, cuja triste historia bem conhecia, pois a tinha ouvido, segredada a medo e mysteriosamente, da boca de alguns velhos escravos da casa, e o futuro se lhe antolhava carregado das mais negras e sinistras cores.

Revelar tudo a Malvina era o unico meio, que se lhe apresentava ao espirito para pôr termo ás ousadias do seo marido, e atalhar futuras desgraças. Mas Isaura amava muito sua jovem senhora para ousar dar semelhante passo, que iria derramar-lhe no seio um pégo de desgostos e amarguras, quebrando-lhe para sempre a risonha e doce illusão, em que vivia?

Preferia antes morrer como sua mãe, victima das mais crueis sevicias, do que ir por suas mãos lançar uma nuvem sinistra no céo até ali tão sereno e bonançoso de sua querida senhora.

O pae de Isaura, o unico ente no mundo, que á excepção de Malvina se interessava por ella, pobre e simples jornaleiro não se achava em estado de poder protegel-a contra as perseguições e violencias, de que se achava ameaçada. Em tão cruel situação Isaura não sabia senão chorar em segredo a sua desventura, e implorar o céo, do qual sómente podia esperar remedio a seos males.