—Que má lingua é esta Rosa!—murmurou enfadada a velha creoula, relanceando um olhar de reprehensão sobre a mulata.—Que mal te fez a pobre Isaura, aquella pomba sem fel, que com ser o que é, bonita e civilisada como qualquer moça branca, não é capaz de fazer pouco caso de ninguem?... Se você se pilhasse no lugar della, pachóla e atrevida como és, havias de ser mil vezes peór.
Rosa mordeo os beiços de despeito, e ia responder com todo o atrevimento e desgarre, que lhe era proprio, quando uma voz aspera e atroadora, que partindo da porta do salão retumbou por todo elle, veio pôr termo á conversação das fiandeiras.
—Silencio!—bradava aquella voz.—Arre! que tagarelice!... parece que aqui só se trabalha de lingua!...
Um homem espadaúdo e quadrado, de barba espessa e negra, de physionomia dura e repulsiva, apresenta-se á porta do salão, e vae entrando. Era o feitor. Acompanhava-o um mulato ainda novo, esbelto e aperaltado, trajando uma bonita libré de pajem, e conduzindo uma roda de fiar. Logo após elles entrou Isaura.
As escravas todas levantárão-se e tomárão a benção ao feitor. Este mandou collocar a roda em um espaço desoccupado, que infelizmente para Isaura ficava ao pé de Rosa.
—Anda cá, rapariga;—disse o feitor voltando-se para Isaura.—De hoje em diante é aqui o teo lugar; esta roda te pertence, e tuas parceiras que te dêm tarefa para hoje. Bem vejo, que te não ha-de agradar muito a mudança; mas que volta se lhe ha-de dar?... teo senhor assim o quer. Anda lá; olha, que isto não é piano, não; é acabar depressa com a tarefa para pegar em outra. Pouca conversa e muito trabalhar...
Sem se mostrar contrariada nem humilhada com a nova occupação, que lhe davão, Isaura foi sentar-se junto á roda, e pôz-se a preparal-a para dar começo ao trabalho. Posto que creada na sala, e empregada quasi sempre em trabalhos delicados, todavia era ella habil em todo o genero de serviço domestico: sabia fiar, tecer, lavar, engomar, e cosinhar tão bem ou melhor do que qualquer outra. Foi pois collocar-se com toda a satisfação e desembaraço entre as suas parceiras; apenas notava-se no sorriso, que lhe adejava nos labios, certa expressão de melancolica resignação; mas isso era o reflexo das inquietações e angustias, que lhe opprimião o coração, que não desgosto por se ver degradada do posto que occupára toda sua vida junto de suas senhoras. Conscia de sua condição Isaura procurava ser humilde como qualquer outra escrava, por que a despeito de sua rara belleza e dos dotes de seo espirito, os fumos da vaidade não lhe entumecião o coração, nem turvavão-lhe a luz de seo natural bom senso. Não obstante porém toda essa modestia e humildade transluzia-lhe, mesmo a despeito della, no olhar, na linguagem e nas maneiras, certa dignidade e orgulho nativo, proveniente talvez da consciencia de sua superioridade, e ella sem o querer sobresahia entre as outras, bella e donosa, pela correcção e nobreza dos traços physionomicos e por certa distincção nos gestos e ademanes. Ninguem diria que era uma escrava, que trabalhava entre as companheiras, e a tomaria antes por uma senhora moça, que por desenfado fiava entre as escravas. Parecia a garça real, alçando o collo garboso e altaneiro, entre uma chusma de passaros vulgares.
As outras escravas a contemplavão todas com certo interesse e comiseração, por que de todas era querida, menos de Rosa, que lhe tinha inveja e aversão mortal. Em duas palavras o leitor ficará inteirado do motivo desta malevolencia de Rosa. Não era só pura inveja; havia ahi alguma cousa de mais positivo, que convertia essa inveja em odio mortal. Rosa havia sido de ha muito a amasia de Leoncio, para quem fôra facil conquista, que não lhe custou nem rogos nem ameaças. Desde que porém inclinou-se a Isaura, Rosa ficou inteiramente abandonada e esquecida. A gentil mulatinha sentio-se cruelmente ferida em seo coração com esse desdem, e como era maligna e vingativa, não podendo vingar-se de seo senhor, jurou descarregar todo o peso de seo rancor sobre a pessoa de sua infeliz rival.
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—Um raio que te parta, maldito!—Má lepra te consuma, cousa ruim!—Uma cascavel que te morda a lingoa, cão danado?—Estas e outras pragas vomitavão as escravas resmungando entre si contra o feitor, apenas este voltou-lhes as costas. O feitor é o ente mais detestado entre os escravos; um carrasco não carrega com tantos odios. É abominado mais do que o senhor cruel, que o munio do azorrague desapiedado para açoital-os e acabrunhal-os de trabalhos. É assim, que o paciente se esquece do juiz, que lavrou a sentença para revoltar-se contra o algôz, que a executa.