Estamos no Recife. É noite e a formosa Veneza da America do Sul, coroada de um diadema de luzes, parece surgir dos braços do oceano, que a estreita em carinhoso amplexo e a beija com amor. É uma noite festiva: em uma das principaes ruas nota-se um edificio esplendidamente illuminado, para onde concorre grande numero de cavalheiros e damas das mais distinctas e opulentas classes. É um lindo prédio onde uma sociedade escolhida costuma dar brilhantes e concorridos saráos. Alguns estudantes dos mais ricos e elegantes, tambem costumão descer da velha Olinda em noites determinadas, para ali virem se espanejar entre os esplendores e harmonias, entre as sedas e perfumes do salão do baile; e aos meigos olhares e angelicos sorrisos das bellas e espirituosas pernambucanas, esquecerem por algumas horas os duros bancos da Academia e os carunchosos praxistas.

Supponhamos que tambem somos adeptos daquelle templo de Terpsicore, entremos por elle a dentro, e observemos o que por ahi vai de curioso e interessante. Logo na primeira sala encontramos um grupo de elegantes mancebos, que conversam com alguma animação. Escutemol-os.

—É mais uma estrella, que vem brilhar nos salões do Recife,—dizia Alvaro,—e dar lustre a nossos saráos. Não ha ainda tres mezes, que chegou a esta cidade, e haverá pouco mais de um, que a conheço. Mas creia-me, Dr. Geraldo, é ella a creatura mais nobre e encantadora que tenho conhecido. Não é uma mulher; é uma fada, é um anjo, é uma deosa!...

—Caspite!—exclamou o Dr. Geraldo; fada! anjo! deosa!... são portanto tres entidades distinctas, mas por fim de contas verás que não passa de uma mulher verdadeira. Mas dize-me cá, meo Alvaro; esse anjo, fada, deosa, mulher ou o que quer que seja, não te disse d’onde veio, de que familia é, se tem fortuna, etc., etc., etc.

—Pouco me importo com essas cousas, e poderia responder-te que veio do céo, que é da familia dos anjos, e que tem uma fortuna superior a todas as riquezas do mundo: uma alma pura, nobre e intelligente, e uma belleza incomparavel. Mas sempre te direi que o que sei de positivo a respeito della é que veio do Rio-Grande do Sul em companhia de seo pae, de quem é ella a unica familia; que seos meios são bastantemente escassos, mas que em compensação ella é linda como os anjos, e tem o nome de Elvira.

—Elvira!—observou o terceiro cavalheiro—bonito nome na verdade!... mas não poderás dizer-nos, Alvaro, onde mora a tua fada?...

—Não faço mysterio disso; mora com seo pae em uma pequena chacara no bairro de Santo Antonio, onde vivem modestamente, evitando relações, e apparecendo mui raras vezes em publico. Nessa chacara, escondida entre moitas de coqueiros e arvoredos, vive ella como a violeta entre a folhagem, ou como fada mysteriosa em uma gruta encantada.

—É celebre!—retorquio o doutor—mas como chegaste a descobrir essa nympha encantada, e a ter entrada em sua gruta mysteriosa?

—Eu vos conto em duas palavras. Passando eu um dia a cavallo por sua chacara, avistei-a sentada em um banco do pequeno jardim da frente. Sorprehendeo-me sua maravilhosa belleza. Como vio que eu a contemplava com demasiada curiosidade, esgueirou-se como uma borboleta entre os arbustos floridos e desappareceo. Formei o firme proposito de vel-a e de falar-lhe, custasse o que custasse. Por mais porém, que indagasse por toda a visinhança, não encontrei uma só pessoa, que se relacionasse com ella, e que pudesse apresentar-me. Indaguei por fim quem era o proprietario da chacara, e fui ter com elle. Nem esse podia dar-me informações, nem servir-me em cousa alguma. O seo inquilino vinha todos os meses pontualmente adiantar o aluguel da chacara; eis tudo quanto a respeito delle sabia. Todavia continuei a passar todas as tardes por defronte do jardim, mas a pé para melhor poder sorprehendel-a e admiral-a; quasi sempre porém sem resultado. Quando acontecia estar no jardim, esquivava-se sempre ás minhas vistas como da primeira vez. Um dia porém quando eu passava, cahio-lhe o lenço ao levantar-se do banco; a grade estava aberta; tomei a liberdade de penetrar no jardim, apanhei o lenço, e corri a entregar-lho, quando já ella punha o pé na soleira de sua casa. Agradeceo-me com um sorriso tão encantador, que estive em termos de cahir de joelhos a seos pés; mas não mandou-me entrar, nem fez-me offerecimento algum.

—Esse lenço, Alvaro,—atalhou um cavalheiro,—de certo ella o deixou cahir de proposito, para que pudesses vel-a de perto e fallar-lhe. É um apuro de romantismo, um delicado rasgo de coquetterie.