Com taes idéas Alvaro não podia deixar de ser abolicionista exaltado, e não o era só em palavras. Consistindo em escravos uma não pequena porção da herança de seos paes, tratou logo de emancipal-os todos. Como porém Alvaro tinha um espirito nimiamente philantropico, conhecendo quanto é perigoso passar bruscamente do estado de absoluta submissão para o gozo da plena liberdade, organizou para os seos libertos em uma de suas fazendas uma especie de colonia, cuja direcção confiou a um probo e zeloso administrador. Desta medida podião resultar grandes vantagens para os libertos, para a sociedade, e para o proprio Alvaro. A fazenda lhes era dada para cultivar, a titulo de arrendamento, e elles sujeitando-se a uma especie de disciplina commum, não só preservavão-se de entregar-se á ociosidade, ao vicio e ao crime, tinhão segura a subsistencia e podião adquirir algum peculio, como tambem poderião indemnizar a Alvaro do sacrificio, que fizera com a sua emancipação. Original e excentrico como um rico lord inglez, professava em seos costumes a pureza e severidade de um quaker. Todavia, como homem de imaginação viva e coração impressionavel, não deixava de amar os prazeres, o luxo, a elegancia, e sobre tudo as mulheres, mas com certo platonismo delicado, certa pureza ideal, proprios das almas elevadas e dos corações bem formados. Entretanto Alvaro ainda não havia encontrado até ali a mulher, que lhe devia tocar o coração, a encarnação do typo ideal, que lhe sorria nos sonhos vagos de sua poetica imaginação. Com tão excellentes e brilhantes predicados, Alvaro por certo devia ser objeto de grande preoccupação no mundo elegante, e talvez o almejo secreto, que fazia palpitar o coração de mais de uma illustre e formosa donzella. Elle porém, igualmente cortez e amavel para com todas, por nenhuma dellas ainda havia dado o minimo signal de predilecção.

Pode-se fazer idéa do desencanto, do assombro, da terrivel decepção que reinou nos circulos das bellas pernambucanas ao verem o vivo interesse e solicitude, de que Alvaro rodeava uma obscura e pobre moça; a defferencia com que a tratava, e os enthusiasticos elogios, que sem rebuço lhe prodigalisava. Juno e Pallas não ficárão tão despeitadas, quando o formoso Paris conferio a Venus o premio da formosura. Já antes daquelle saráo, Alvaro em alguns circulos de senhoras havia fallado de Elvira em termos tão lisonjeiros e mesmo com certa eloquencia apaixonada, que a todas sorprehendeo e inquietou. As moças ardião por ver aquelle prototypo de belleza, e já de antemão chovião sobre a desconhecida e o seo campeão mil chascos e malignos apodos. Quando porém a virão, apezar dos contrafeitos e desdenhosos sorrisos, que apenas lhes roçavão a flor dos labios, sentirão uma desagradavel impressão pungir-lhes no intimo do coração. Peço perdão ás bellas, de minha rude franqueza; a vaidade é com bem raras excepções, companheira inseparavel da belleza; e onde se acha a vaidade, a inveja, que sempre a acompanha mais ou menos de perto, não se faz esperar por muito tempo. A belleza da desconhecida era incontestavel; sua modestia e timidez em nada prejudicavão a singela e nativa elegancia de que era dotada; o traje simples e mesmo pobre em relação ao luxo sumptuoso, que a rodeava, assentava-lhe maravilhosamente, e realçavão-lhe ainda mais os encantos naturaes. O effeito deslumbrante, que Elvira produzio logo ao primeiro aspecto, e o empenho com que Alvaro procurava fazer sobresahir os seductores attractivos de Elvira, como de proposito para eclipsar as outras bellezas do salão, erão de sobejo para irritar-lhes a vaidade e o amor proprio. Uma e outro devião ser naquella noite o alvo de mil olhares desdenhosos, de mil sorrisos zombeteiros, e acerados epigrammas.

Alvaro nem dava fé da mal disfarçada hostilidade, com que elle e a sua protegida,—podemos dar-lhe esse nome,—erão acolhidos naquella reunião; mas a timida e modesta Elvira, que em parte alguma encontrava lhaneza e cordialidade, achava-se mal naquella atmosphera de fingida amabilidade e cortezania, e em cada olhar via um escarneo desdenhoso, em cada sorriso um sarcasmo.

Já sabemos quem era Alvaro; agora travemos conhecimento com o seo amigo, o Dr. Geraldo.

Era um homem de trinta annos, bacharel em direito, e advogado altamente conceituado no foro do Recife. Entre as relações de Alvaro era a que cultivava com mais affecto e intimidade; uma intelligencia de bom quilate, firme e esclarecida, um caracter sincero, franco e cheio de nobreza, davam-lhe direito a essa predilecção da parte de Alvaro. Seo espirito pratico e positivo, como deve ser o de um consummado jurisconsulto, prestando o maior respeito ás instituições e mesmo a todos os preconceitos e caprichos da sociedade, estava em completo antagonismo com as idéas excentricas e reformistas de seo amigo; mas esse antagonismo longe de perturbar ou arrefecer a reciproca estima e affeição, que entre eles reinava, servia antes para alimental-as e fortalecel-as, quebrando a monotonia, que deve reinar nas relações de duas almas sempre accordes e unisonas em tudo. Estas taes por fim de contas, vendo que o que uma pensa, a outra tambem pensa, o que uma quer, a outra igualmente quer, e que nada tem a se communicarem, enjoadas de tanto se dizerem—amen,—ver-se-hão forçadas a recolherem-se ao silencio e a dormitarem uma em face da outra; placida, commoda e somnolenta amisade!... De mais, a contrariedade de tendencias e opiniões são sempre de grande utilidade entre amigos, modificando-se e temperando-se umas pelas outras. É assim, que muitas vezes o positivismo e o senso pratico do Dr. Geraldo servião de correctivo ás utopias e exaltações de Alvaro, e vice-versa.

Da boca do proprio Alvaro já ouvimos por que acaso veio elle a conhecer D. Elvira, e como conseguio leval-a ao saráo, a que ainda continuamos a assistir.

—Meo pae,—dizia uma jovem senhora a um homem respeitavel, em cujo braço se arrimava, entrando na ante-sala, onde ainda nos conservamos de observação.—Meo pae, fiquemos por aqui um pouco nesta sala, em quanto está deserta. Ah! meo Deos!—continuou ella com voz abafada, depois de se terem sentado junto um do outro;—que vim eu aqui fazer, eu pobre escrava, no meio dos saráos dos ricos e dos fidalgos!... este luxo, estas luzes, estas homenagens, que me rodeião, me perturbão os sentidos e causão-me vertigem. É um crime que cometo, envolvendo-me no meio de tão luzida sociedade; é uma traição, meo pae; eu o conheço, e sinto remorsos... Se estas nobres senhoras adivinhassem, que ao lado dellas diverte-se e dança uma miseravel escrava fugida a seos senhores!... Escrava!—exclamou levantando-se—escrava!... affigura-se-me que todos estão lendo, gravada em letras negras em minha fronte, esta sinistra palavra!... fujamos daqui, meu pai, fujamos! esta sociedade parece estar escarnecendo de mim; este ar me suffoca... fujamos.

Fallando assim a moça palida e offegante, lançava a cada phrase olhares inquietos em roda de si, e empuchava o braço de seo pae, repetindo sempre com anciosa soffreguidão:—Vamo-nos, meo pae; fujamos daqui.

—Socega teo coração, minha filha, respondia o velho procurando acalmal-a.—Aqui ninguem absolutamente pode suspeitar quem tu és.

Como poderão desconfiar, que és uma escrava, se de todas essas lindas e nobres senhoras nem pela formosura, nem pela graça e prendas do espirito, nenhuma pode levar-te a palma?