—E é talvez por isso mesmo, que é tão linda nos labios de Vª. Exª.
—Ai! triste de mim!—suspirou dentro da alma D. Elvira:—aquelles mesmos que mais me amão, tornão-se, sem o saber, os meos algozes!...
Elvira bem quisera escusar-se a todo transe; cantar naquella ocasião era para ella o mais penoso dos sacrificios. Mas não lhe era mais possivel reluctar, e lembrando-se do judicioso conselho de seo pae, não quis mais ver-se rogada, e acceitando o braço que Alvaro lhe offerecia, foi por elle conduzida ao piano, onde sentou-se com a graça e elegancia, de quem se acha completamente familiarizada com o instrumento.
Uma multidão de cabeças curiosas, e de corações palpitando na mais anciosa expectação, se apinhárão em volta do piano; os cavalheiros estavão anciosos por saberem, se a voz daquella mulher correspondia á sua extraordinaria belleza; se a fada seria tambem uma sereia; as moças esperavão, que ao menos naquelle terreno, terião o prazer de ver derrotada a sua formidavel emula, e já contavão comparal-a com o pavão da fabula, queixando-se a Juno, que o tendo formado a mais bella das aves, não lhe déra outra voz mais que um guincho aspero e desagradavel.
A conjunctura era delicada e solemne; a moça achava-se na difficil situação de uma prima dona, que precedida de uma grande reputação, faz a sua estréa perante um publico exigente e illustrado. Em torno della fazia-se profundo silencio; as respirações estavão como que suspensas, ao passo que parecia ouvir-se o palpitar de todos os corações no offego da expectação. Alvaro, apezar de conhecer já a excellencia da voz de Elvira e sua maestria no canto, não deixava de mostrar-se inquieto e commovido. Elvira por sua parte pouco se importaria de cantar bem ou mal; desejaria até passar pela moça a mais feia, a mais desengraçada e a mais tola daquella reunião, com tanto que a deixassem a um canto esquecida e socegada. Dir-se-hia, que estava debaixo do imperio de algum terrivel presentimento. Mas Elvira amava a Alvaro, e grata ao delicado empenho, com que este, cheio de solicitude e enthusiasmo, se esforçava por apresental-a como um prototypo de belleza e de talento aos olhos daquella brilhante sociedade, para satisfazel-o, e não desmentir a lisonjeira opinião, que propalára a respeito della, desejava cantar o melhor que lhe fosse possivel. Era ao triumpho de Alvaro, que aspirava mais do que ao seo proprio.
Uma vez sentada ao piano, logo que seos dedos mimosos e flexiveis, pousando sobre o teclado, preludiárão alguns singelos accordes, a moça sentio-se outra, revelando aos circumstantes maravilhados um novo e original aspecto de sua formosura. A physionomia, cuja expressão habitual era toda modestia, ingenuidade e candura, animou-se de luz insolita; o busto admiravelmente cinzelado, ergueo-se altaneiro e magestoso; os olhos estaticos alçavão-se cheios de esplendor e serenidade; os seios, que até ali apenas arfavão como as ondas de um lago em tranquilla noite de luar, começárão de offegar, turgidos e agitados, como oceano encapellado; seo collo distendeo-se alvo e esbelto como o do cysne, que se aprésta a desprender os divinais gorgeios. Era o sopro da inspiração artistica, que roçando-lhe pela fronte, a transformava em sacerdotiza do bello, em interprete inspirada das harmonias do céo. Ali sentia-se ella rainha sobre seo throno ideal; ali era Caliope sentada sobre a tripode sagrada, avassalando o mundo ao som de enlevadoras e ineffaveis harmonias. Das proprias inquietações e angustias da alma soube ella tirar alento e inspiração para vencer as difficuldades da ardua situação, em que se achava empenhada. Banhou os labios com as lagrimas do coração, e a voz lhe rompeo do peito com tão original e arrebatadora vibração, em modulações tão puras e suaves, tão repassadas de sublime melancolia, que mais de uma lagrima vio-se rolar pelas faces dos frequentadores daquelle templo dos prazeres, dos risos, e da frivolidade!
Elvira acabava de alcançar um triumpho collossal. Mal terminára o canto, o salão restrugio entre os mais estrondosos applausos, e parecia que vinha desabando ao ruido atordoardor das palmas e dos vivas!
—A fada de Alvaro é tambem uma sereia;—dizia o Dr. Geraldo a um dos cavalheiros, em cuja companhia já o vimos.—Resume tudo em si!... que timbre de voz tão puro e tão suave! julguei-me arrebatado ao septimo céo, ouvindo as harmonias dos choros angelicos.
—É uma consummada artista ... no theatro faria esquecer a Malibran, e conquistaria reputação europea. Alvaro tem razão; uma creatura assim não pode ser uma mulher ordinaria, e muito menos uma aventureira... A musica dando o signal para a quadrilha, interrompe a conversação ou não nol-a deixa ouvir.
—D. Elvira,—diz Alvaro dirigindo-se á sua protegida, que já se achava sentada ao pé de seo pae,—lembre-se, que me fez a honra de conceder-me esta quadrilha.