—Quem tem um jogo seguro como eu tenho, ha-de ir meter-se nos azares do lansquenet, que já me tem engolido bem boas patacas?... Nem tão tolo serei eu.
—Com mil diabos, Martinho!... então não te explicarás?... que maldito jogo é esse?...
—Ora adivinhem lá... Não são capazes. É uma bisca de estrondo. Se adivinharem, dou-lhes uma ceia esplendida no melhor hotel desta cidade; bem entendido, se encartar a minha bisca.
—Dessa ceia estamos nós bem livres, pobre comedor de bacalháo ardido, e por que não é possivel haver quem adivinhe as asneiras que passam lá por esses teos miolos extravagantes. O que queremos é o teo dinheiro aqui sobre a mesa do lansquenet.
—Ora deixem-me em paz,—disse Martinho, com os olhos attentamente dirigidos para o salão de dança.—Estou calculando o meo jogo ... supponhão que é o xadrez, e que eu vou dar cheque-mate á rainha ... dito e feito, e os cinco contos são meos...
—Não ha duvida, o rapaz está doudo varrido... Anda lá, Martinho; descobre o teo jogo, ou vae-te embora, e não nos estejas a massar a paciencia com tuas maluquices.
—Malucos são vocês. O meo jogo é este ... mas quanto me dão para descobril-o? olhem que é cousa curiosa.
—Queres-nos atiçar a curiosidade para nos chuchar alguns cobres, não é assim?... pois desta vez affianço-te da minha parte, que não arranjas nada. Vae-te aos diabos com o teo jogo, e deixa-nos cá com o nosso. Ás cartas, meos amigos, e deixemos o Martinho com suas maluquices.
—Com suas velhacarias, dirás tu ... não me pilha.
—Ah! toleirões!—exclamou o Martinho,—vocês ainda estão com os beiços com que mamárão.