—Agora venhão cá,—continuou,—e reparem naquella bonita moça, que dansa de par com Alvaro. Pobre Alvaro, como está cheio de si! se soubesse com quem dansa, cahia-lhe a cara aos pés. Reparem bem, meos senhores, e vejão se não combinão perfeitamente os signaes?...
—Perfeitamente!—acudio um dos moços,—é extraordinario! lá vejo o signalsinho na face esquerda, e que lhe dá infinita graça. Se tiver a tal aza de borboleta sobre o seio, não pode haver mais duvida. Ó céos! é possivel que uma moça tão linda seja uma escrava!
—E que tenha a audacia de apresentar-se em um bailes destes?—accrescentou outro.—Ainda não posso capacitar-me.
—Pois cá para mim,—disse o Martinho—o negocio é liquido, assim como os cinco contos, que me parece estarem já me cantando na algibeira; e até logo, meos caros.
E dizendo isto dobrou cuidadosamente o annuncio, meteo-o na algibeira, e esfregando as mãos com cynico contentamento, tomou o chapéo, e retirou-se.
—Forte miseravel!...—disse um dos comparsas—que vil ganancia de ouro a deste Martinho! estou vendo, que é capaz de fazer prender aquella moça aqui mesmo em pleno baile.
—Por cinco contos é capaz de todas as infamias do mundo. Tão vil creatura é um desdouro para a classe a que pertencemos; devemos todos conspirar para expellil-o da Academia. Cinco contos daria eu para ser escravo daquella rara formosura.
—É assombroso! Quem diria, que debaixo daquella figura de anjo estaria occulta uma escrava fugida!
—E tambem quem nos diz, que no corpo da escrava não se acha asylada uma alma de anjo?...