—Anda lá; já sei o que te amofina; a tua cantiga bem o diz. Bonita como és, não podes deixar de ter algum namorado.
—Eu, senhora!... por quem é, não pense nisso.
—Tu mesma; pois que tem isso?... não te vexes; pois é alguma cousa do outro mundo? Vamos já, confessa; tens um amante, e é por isso, que lamentas não teres nascido livre para poder amar aquelle que te agradou, e a quem cahiste em graça, não é assim?...
—Perdôe-me, sinhá Malvina;—replicou a escrava com um candido sorriso.—Está muito enganada; estou tão longe de pensar nisso!
—Qual longe!... não me enganas, minha rapariguinha!... tu amas, e és mui linda e bem prendada para te inclinares a um escravo; só se fosse um escravo, como tu és, o que duvido que haja no mundo. Uma menina como tu, bem pode conquistar o amor de algum guapo mocetão, e eis ahi a causa da choradeira de tua canção. Mas não te afflijas, minha Isaura; eu te protesto, que ámanhã mesmo terás a tua liberdade; deixa Leoncio chegar; é uma vergonha, que uma rapariga como tu se veja ainda na condição de escrava.
—Deixe-se disso, senhora; eu não penso em amores e muito menos em liberdade; ás vezes fico triste á toa, sem motivo nenhum...
—Não importa. Sou eu, quem quero que sejas livre, e has-de sel-o.
Neste ponto a conversação foi cortada por um tropel de cavalleiros, que chegavão e apeavão-se á porta da fazenda.
Malvina e Isaura correrão á janella a ver quem erão.