—Não; aquella mulher não pode ser uma escrava,—dizião elles,—aqui ha algum mysterio, que algum dia se desvendará.

—Qual mysterio? o caso é muito factivel, e ella mesma o confessou. Mas quem será esse bruto e desalmado fazendeiro, que conserva no captiveiro uma tão linda creatura?

—Deve ser algum lorpa de alma bem estupida e sordida.

—Se não fôr algum sultãosinho de bom gosto, que a quer para o seo serralho.

—Seja como fôr, esse bruto deve ser constrangido a dar-lhe a liberdade. Na senzala uma mulher que merecia sentar-se n’um throno!...

—Tambem só o infame do Martinho, com o seo satanico instincto de cobiça, poderia farejar uma escrava na pessoa daquelle anjo! que impudencia! se o visse agora aqui, era capaz de estrangulal-o!

Entretanto Martinho, que se havia previamente munido de um mandado de apprehensão, e se fazia acompanhar de um official de justiça, exigia terminantemente, que se lhe fizesse entrega de Isaura. Alvaro porém interpondo o valimento e prestigio de que gozava, oppôz-se decididamente a essa exigencia, e tomando por testemunhas as pessoas que ali se achavão, constituio-se fiador da escrava, compromettendo-se a entregal-a a seo senhor, ou a quem por ordem delle a reclamasse. Em vão Martinho quiz insistir; uma multidão de vozes, que o apupavão e cobrião de injurias, forçárão-no a calar-se e desistir de sua pretensão.

—Ah! malditos! querem-me roubar!—bradava Martinho como um possesso.—Meos cinco contos! ai! meos cinco contos! lá se vão pela agoa abaixo.

E dizendo isto procurou a escada, e saltando-a aos dois e tres degráos, lá se foi bramindo pela porta a fóra.

Capitulo XV.