—Nenhum, Alvaro, em quanto nenhuma prova puderes adduzir em pro do direito de tua protegida. A lei no escravo só vê a propriedade, e quasi que prescinde nelle inteiramente da natureza humana. O senhor tem direito absoluto de propriedade sobre o escravo, e só pode perdel-o manumittindo-o ou albreando-o por qualquer maneira, ou por litigio provando-se a liberdade, mas não por sevicias que commetta ou outro qualquer motivo analogo.

—Miseravel e estupida papelada que são essas vossas leis. Para illaquear a boa fé, proteger a fraude, illudir a ignorancia, defraudar o pobre e favorecer a usura e rapacidade dos ricos, são ellas fecundas em recursos e estratagemas de toda a especie. Mas quando se tem em vista um fim humanitario, quando se trata de proteger a innocencia desvalida contra a prepotencia, de amparar o infortunio contra uma injusta perseguição, então ou são mudas, ou são crueis.

Mas não obstante ellas hei-de empregar todos os esforços ao meo alcance para libertar a infeliz do affrontoso jugo que a opprime. Para tal empreza alenta-me não já sómente um impulso de generosidade, como tambem o mais puro e ardente amor, sem pejo o confesso.

O amigo de Alvaro arripiou-se com esta deliberação tão franca e enthusiasticamente proclamada com essa linguagem tão exaltada, que lhe pareceo um deploravel desvario da imaginação.

—Nunca pensei,—replicou com gravidade,—que a tal ponto chegasse a exaltação desse teo excentrico e malfadado amor. Que por um impulso de humanidade procures proteger uma escrava desvalida, nada mais digno e mais natural. O mais não passa de delirio de uma imaginação exaltada e romanesca. Será airoso e digno da posição que occupas na sociedade, deixares-te dominar de uma paixão violenta por uma escrava?...

—Escrava!—exclamou Alvaro cada vez mais exaltado,—isso não passa de um nome vão, que nada exprime, ou exprime uma mentira. Pureza de anjo, formosura de fada, eis a realidade! Pode um homem ou a sociedade inteira contrariar as vistas do creador, e transformar em uma vil escrava o anjo que sobre a terra cahio das mãos de Deos?...

—Mas por uma triste fatalidade o anjo cahio do céo no lodaçal da escravidão, e ninguem aos olhos do mundo o poderá purificar dessa nodoa, que lhe mancha as azas. Alvaro, a vida social está toda juncada de forcas caudinas, por debaixo das quaes nos é forçoso curvar-nos, sob pena de abalroarmos a fronte em algum obstaculo, que nos faça cahir. Quem não respeita as conveniencias e até os preconceitos sociaes, arrisca-se a cahir no descredito ou no ridiculo.

—A escravidão em si mesma já é uma indignidade, uma ulcera hedionda na face da nação, que a tolera e protege. Por minha parte, nenhum motivo enxergo para levar a esse ponto o respeito por um preconceito absurdo, resultante de um abuso, que nos deshonra aos olhos do mundo civilisado. Seja eu embora o primeiro a dar esse nobre exemplo, que talvez será imitado. Sirva elle ao menos de um protesto energico e solemne contra uma barbara e vergonhosa instituição.

—És rico, Alvaro, e a riqueza te dá bastante independencia, para poderes satisfazer os teos sonhos philantropicos e os caprichos de tua imaginação romanesca. Mas tua riqueza, por maior que seja, nunca poderia reformar os prejuizos do mundo, nem fazer com que essa escrava, a quem segundo todas as apparencias quererias ligar o teo destino, fosse considerada, e nem mesmo admittida nos circulos da alta sociedade...

—E que me importão os circulos da alta sociedade, uma vez que sejamos bem acolhidos no meio das pessoas de bom senso, e coração bem formado? Demais enganas-te completamente, meo Geraldo. O mundo corteja sempre o dinheiro, onde quer que elle se ache. O ouro tem um brilho, que deslumbra, e apaga completamente essas pretendidas nodoas de nascimento. Não nos faltarão nunca, eu te affianço, o respeito, nem a consideração social, em quanto nos não faltar o dinheiro.